Carl Sagan e o kit de detecção de mentiras

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Carl Sagan é uma referência de pensamento e de escrita como poucos. Dotado de um didatismo formidável — comparável, talvez, ao didatismo de Richard Feynman — Sagan produziu centenas de artigos em sua área de formação (a Astronomia), contribuiu decisivamente em missões de exploração especial e escreveu dezenas de livros que discutem a ciência, prática científica e a sua relação com a sociedade. Dentre os livros, destacam-se “Contato” — único livro de ficção do cientista que baseou o filme de mesmo nome dirigido por Spielberg —, “Bilhões e bilhões”, “Variedades da experiência científica” e o clássico atemporal “O mundo assombrado pelos demônios”.

Publicado em 1995, “O mundo assombrado pelos demônios” discute a importância de se aplicar o pensamento crítico que comumente é aplicado no conhecimento científico como ponto de equilíbrio entre o ceticismo e crença. Utilizando pontos de sua experiência pessoal, Sagan discute a importância da alfabetização científica [1] como forma de se analisar questões como abduções, profecias e mediunidade e até materiais que são vendidos como unanimidade entre cientistas [2].

Esse é um dos importantes legados de Carl Sagan: a análise racional sobre eventos que não os rebaixem a coisas de uma classe inferior de pensamento, como se o conhecimento científico fosse absoluto e superior a qualquer outra forma de manifestação cultural (Sagan expressa a importância da existência de uma visão científica crítica dos fatos especialmente na coleção de palestras que origina o livro “Variedades da experiência científica: uma visão pessoal da busca por Deus”, lançado alguns meses antes do cientista morrer vítima de câncer, em 1996).

Em “Um mundo assombrado…”, Sagan dedica um capítulo inteiro sobre como o raciocínio crítico que cientistas geralmente [3] utilizam em seu trabalho pode ser aplicado por qualquer pessoa para analisar fatos e evidências dentro e fora da ciência. Baseando-se na sua experiência de luto com a perda de seus pais, o cientista descreve as sensações que a possibilidade de vida após a morte traria para mitigar o seu sentimento de perda, sinalizando a sua compreensão com pessoas que perderam seus entes queridos e não usam a racionalidade absoluta para lidar com isso:

“Por isso, não rio da mulher que visita o túmulo do marido e conversa com ele de vez em quando, talvez no aniversário de sua morte. Não é difícil compreender. E se tenho dificuldades com o status ontológico daquele com que ela está falando, não faz mal. Não é isso que importa. O que importa é que os seres humanos são humanos”

Sentimentos de crença fazem parte da experiência humana e Sagan não nega isso. O que ele defende é que as crenças devem ser analisadas sob o ponto de vista crítico, que ele denomina de kit de detecção de mentiras. Essas mentiras podem ser contadas por golpistas que aproveitam da vulnerabilidade ou da crença alheia para obter alguma vantagem, por governos que manipulam dados, fatos e informações ou por empresas que desejam vender algum produto ou serviço e escondem os prejuízos que o seu uso pode trazer — algumas delas aplicam um verniz de credibilidade que emprestam de cientistas sem compromisso com a realidade e com o seu público. Então, o kit de Sagan pode ser um caminho para ensinar as pessoas a checarem fatos por si mesmas ou a aumentar suas possibilidades de pensamento e de ação em suas vidas.

O kit é composto por nove itens (ou ferramentas que não precisam ser utilizadas, necessariamente, na sequência apresentada por Sagan):

Sempre que possível, deve haver confirmação independente dos “fatos”

Isso pode ser feito conferindo por si mesmo a fonte original da informação, seja um portal de notícias, site de instituições ou de órgãos públicos (o que eu chamo de “princípio da alegação da chuva ”).

Incentivar o debate substantivo sobre as evidências por proponentes conhecedores de todos os pontos de vista

O que permite reunir informações para analisar os fatos com maior abrangência, sem se basear em apenas um ponto de vista sobre a questão.

Argumentos de autoridade têm pouco peso – “autoridades” cometeram erros no passado. Eles farão isso novamente no futuro. Talvez uma maneira melhor de dizer isso seja que na ciência não há autoridades; no máximo, há especialistas.

Talvez a grande ferramenta do kit de Sagan: a autoridade está no argumento, não necessariamente no diploma. Isso é diferente de negar o conhecimento dos especialistas: o que se defende é que argumentos sejam criticamente analisados ao invés de serem adotados sem qualquer contestação.

Devemos considerar mais de uma hipótese. Se uma coisa deve ser explicada, pense em todas as diferentes maneiras pelas quais poderia ser explicada. Então pense em testes pelos quais você poderia refutar sistematicamente cada uma das alternativas. O que sobrevive, a hipótese que resiste à refutação nesta seleção darwiniana entre “múltiplas hipóteses de trabalho”, tem uma chance muito maior de ser a resposta certa do que se você simplesmente tivesse corrido com a primeira ideia que chamou sua atenção.

Como consequência de se ter vários pontos de vista sobre uma questão, é importante filtrar e testar as hipóteses (as possíveis respostas) que explicam ou justificam determinado tema. Não é preciso um laboratório para fazer isso: confrontar os pontos de vista com a realidade já é uma forma de fazer esse teste de hipóteses.

Tente não se apegar demais a uma hipótese só porque ela é sua. É apenas uma estação intermediária na busca do conhecimento. Pergunte a si mesmo por que você gosta da ideia. Compare-o de forma justa com as alternativas. Veja se você pode encontrar razões para rejeitá-lo. Se você não fizer isso, outros farão.

Encontrar respostas melhores é um dos objetivos da ciência e entender isso é entender que você pode estar errado em alguma questão ou ponto de vista (e está tudo bem).

Quantificar. Se o que quer que você está explicando tiver alguma medida, alguma quantidade numérica ligada a ela, você será muito mais capaz de discriminar entre hipóteses concorrentes. O que é vago e qualitativo está aberto a muitas explicações. Claro que há verdades a serem buscadas nas muitas questões qualitativas que somos obrigados a enfrentar, mas encontrá-las é mais desafiador.

Números são muito eficientes para nos ajudar a dimensionar coisas. Poder parecer uma obviedade, mas é importante ressaltar que há uma diferença entre “houve muitas mortes no decorrentes de covid-19” e “mais de 600 mil pessoas morreram de covid-19”. [4]

Se houver uma cadeia de argumentos, todos os elos da cadeia devem funcionar (incluindo a premissa) – não apenas a maioria deles.

Se existem dois ou mais argumentos interdependentes, todos eles devem ser corretos. Lembre-se: dois argumentos errados não fazem um argumento correto e, como já diria Carl Sagan:“afirmações extraordinárias exigem evidências extraordinárias” [5].

Navalha de Occam. Essa conveniente regra prática nos leva, quando confrontados com duas hipóteses que explicam os dados igualmente bem, a escolher a mais simples.

Sempre pergunte se a hipótese pode ser, pelo menos em princípio, falsificada. Proposições que não são testáveis, não falsificáveis ​​não valem muito. Considere a grande ideia de que nosso Universo e tudo nele é apenas uma partícula elementar – um elétron, digamos – em um Cosmos muito maior. Mas se nunca podemos adquirir informações de fora do nosso Universo, a ideia não é incapaz de refutação? Você deve ser capaz de verificar as afirmações. Os céticos inveterados devem ter a chance de seguir seu raciocínio, duplicar seus experimentos e ver se obtêm o mesmo resultado.

O princípio da falseabilidade, como já vimos aqui [6], defende que uma hipótese possa ser refutável, passível de algum tipo de verificação, para que seja considerada uma hipótese válida dentro da ciência. É uma demarcação importante do conhecimento científico, mas não a única. Ainda assim, o ponto que Sagan apresenta aqui é importante: afirmações devem ser passíveis de serem verificadas, contestadas e explicadas. Um argumento deve ser resiliente a criticidade de quem o ouve.

Além da proposição do kit, Sagan traz um fundamental alerta sobre armadilhas argumentativas, chamadas de falácias. As falácias são um recurso discursivo que se apresenta como verdadeiro e pode ser empregado para justificar ambiguidades de pensamento. Além das falácias mais comuns — vinte, no total —, Sagan apresenta exemplos práticos como essas falácias podem ser identificadas no cotidiano:

  1. ad hominem — latim para “para o homem”, atacando o argumentador e não o argumento (por exemplo, o reverendo Dr. Smith é um conhecido fundamentalista bíblico, então suas objeções à evolução não precisam ser levadas a sério)
  2. argumento de autoridade (equivalia a confiar nele porque ele era presidente: um erro, como se viu)
  3. argumento de consequências adversas (por exemplo, um Deus punindo e recompensando deve existir, porque se Ele não o fizesse, a sociedade seria muito mais ilegal e perigosa – talvez até ingovernável. Ou: O réu em um julgamento de assassinato amplamente divulgado deve ser encontrado culpado; caso contrário, será um incentivo para outros homens matarem suas esposas)
  4. apelo à ignorância – a afirmação de que tudo o que não foi provado falso deve ser verdade, e vice-versa (por exemplo, não há evidência convincente de que os OVNIs não estão visitando a Terra; portanto, os OVNIs existem – e há vida inteligente em outras partes do Universo. Ou: Pode haver setenta quintilhões de outros mundos, mas nenhum é conhecido por ter o avanço moral da Terra, então ainda somos centrais para o Universo). Essa impaciência com a ambiguidade pode ser criticada na frase: ausência de evidência é não evidência de ausência.
  5. alegação especial, muitas vezes para resgatar uma proposição em profundo problema retórico (por exemplo, como um Deus misericordioso pode condenar as gerações futuras ao tormento porque, contra as ordens, uma mulher induziu um homem a comer uma maçã? A alegação especial: você não entende a doutrina sutil do Livre Arbítrio. Ou: Como pode haver um Pai, Filho e Espírito Santo igualmente divinos na mesma pessoa? Alegação especial: você não entende o Mistério Divino da Trindade. Ou: Como Deus pôde permitir que os seguidores de Judaísmo, Cristianismo e Islamismo — cada um à sua maneira, ordenados a medidas heróicas de bondade amorosa e compaixão — por terem perpetrado tanta crueldade por tanto tempo? Alegação especial: Você não entende o Livre Arbítrio novamente. maneiras misteriosas).
  6. Petição de princípio , também chamada presunção de resposta (por exemplo, devemos instituir a pena de morte para desencorajar crimes violentos. Mas a taxa de crimes violentos de fato cai quando a pena de morte é imposta? Ou: O mercado de ações caiu ontem por causa de um problema técnico ajuste e obtenção de lucros pelos investidores — mas existe alguma evidência independente para o papel causal do “ajuste” e da obtenção de lucros; aprendemos alguma coisa com essa suposta explicação?)
  7. seleção das observações , também chamada de enumeração de circunstâncias favoráveis ​​, ou como o filósofo Francis Bacon a descreveu, contar os acertos e esquecer os erros (por exemplo, um estado se gaba dos presidentes que produziu, mas silencia sobre seus assassinos em série)
  8. estatísticas de pequenos números — um parente próximo da seleção das observações (por exemplo, “dizem que 1 em cada 5 pessoas é chinesa. Como isso é possível? Conheço centenas de pessoas, e nenhuma delas é chinesa. Atenciosamente.” Ou: “Joguei três setes seguidos. Esta noite não tenho como perder.”).
  9. incompreensão da natureza das estatísticas (por exemplo, o presidente Dwight Eisenhower expressando espanto e alarme ao descobrir que metade de todos os americanos têm inteligência abaixo da média).
  10. incoerência (por exemplo, planejar com prudência o pior que um adversário militar em potencial é capaz, mas ignorar parcimoniosamente as projeções científicas sobre os perigos ambientais porque eles não são “provados”. Ou atribua a alta taxa de mortalidade infantil na antiga URSS, mas nunca atribua a alta taxa de mortalidade infantil nos Estados Unidos (agora a mais alta das principais nações industrializadas) às falhas do capitalismo. Ou: Considere razoável que o Universo continue a existir para sempre no futuro, mas julgue absurda a possibilidade de que tenha duração infinita no passado).
  11. non sequitur — latim para “não segue” (por exemplo, nossa nação prevalecerá porque Deus é grande. Mas quase todas as nações fingem que isso é verdade; a formulação alemã era “Gott mit uns”). Muitas vezes, aqueles que caem na falácia do non sequitur simplesmente falharam em reconhecer possibilidades alternativas;
  12. post hoc, ergo propter hoc — latim para “Aconteceu depois, então foi causado por” (por exemplo, Jaime Cardinal Sin, Arcebispo de Manila: “Conheço… uma jovem de 26 anos que parece 60 porque toma pílulas [contraceptivas]” Ou: Antes das mulheres votarem, não havia armas nucleares)
  13. pergunta sem sentido (por exemplo, o que acontece quando uma força irresistível encontra um objeto imóvel? Mas se existe uma força irresistível, não pode haver objetos imóveis e vice-versa).
  14. meio excluído, ou falsa dicotomia — considerando apenas os dois extremos em um continuum de possibilidades intermediárias (por exemplo, “Claro, fique do lado dele; meu marido é perfeito; estou sempre errado.” Ou: “Ou você ama seu país ou odeia isso.” Ou: “Se você não faz parte da solução, você faz parte do problema”)
  15. curto prazo versus longo prazo — um subconjunto da exclusão de meio-termo, mas tão importante que o destaquei para atenção especial (por exemplo, não podemos pagar programas para alimentar crianças desnutridas e educar crianças em idade pré-escolar. Precisamos lidar urgentemente com o crime nas ruas. Ou: por que explorar o espaço ou buscar a ciência fundamental quando temos um déficit orçamentário tão grande?).
  16. ladeira escorregadia, relacionada a exclusão de meio-termo (por exemplo, se permitirmos o aborto nas primeiras semanas de gravidez, será impossível evitar a morte de um bebê no final da gravidez. Ou, inversamente: Se o estado proibir o aborto ainda no nono mês, logo estará nos dizendo o que fazer com nossos corpos na época da concepção).
  17. confusão de correlação e causalidade (por exemplo, uma pesquisa mostra que mais graduados universitários são homossexuais do que aqueles com menor escolaridade; portanto, a educação torna as pessoas homossexuais).
  18. espantalho — caricaturando uma posição para facilitar o ataque (por exemplo, os cientistas supõem que as coisas vivas simplesmente se juntaram por acaso — uma formulação que ignora deliberadamente o insight darwiniano central, que a natureza se constrói salvando o que funciona e descartando o que não funciona. Ou — isso também é uma falácia de curto/longo prazo — os ambientalistas se preocupam mais com os dardos-caracol e corujas-pintadas do que com as pessoas);
  19. evidências suprimidas, ou meias-verdades (por exemplo, uma “profecia” incrivelmente precisa e amplamente citada da tentativa de assassinato do presidente Reagan é mostrada na televisão ; mas — um detalhe importante — foi gravada antes ou depois do evento?).
  20. palavras vazias (por exemplo, a separação de poderes da Constituição dos EUA especifica que os Estados Unidos não podem conduzir uma guerra sem uma declaração do Congresso. Por outro lado, os presidentes recebem o controle da política externa e da condução de guerras, que são ferramentas potencialmente poderosas. Presidentes de qualquer partido político podem, portanto, ser tentados a organizar guerras enquanto agitam a bandeira e chamam as guerras de outra coisa – “ações policiais”, “incursões armadas”, “greves de reação protetora”, “pacificação”, “salvaguardar os interesses americanos” e uma ampla variedade de “operações”, como “Operação Just Cause”. “Uma arte importante dos políticos é encontrar novos nomes para instituições que, sob nomes antigos, tornaram-se odiosas ao público”).

Como o próprio Carl Sagan discute em seu texto, o kit de detecção de mentiras pode ser mal utilizado, fora de seu contexto ou até como forma de mecanizar o pensamento. Contudo, se apresentado de maneira criteriosa — como o próprio kit defende, aliás — pode ser um importante aliado na avaliação de nossos próprios argumentos ou na avaliação dos fatos apresentados por terceiros.

Ou ampliar o que vemos e como vemos o mundo ao nosso redor.

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[1] Sobre o termo “Alfabetização Científica”, muitos autores ponderam sobre a sua questão semântica e objetivos. Estes defendem que o termo denotaria uma pretensa superioridade de cientistas em relação ao público (que precisaria ser alfabetizado, sem discussões a respeito do que deveria ser ensinado. Outros autores defendem o termo, colocando-o sob a ótica freireana de transformação de saberes. De todo modo, o sentido apontado por Sagan consiste numa visão cultural e crítica da ciência (que autores definem como “cultura científica”).
[2] O empréstimo de credibilidade é uma tática de ciência ruim: https://ccult.org/a-ciencia-ruim-e-a-ciencia-predatoria-utilizam-credibilidade-que-nao-deveriam-possuir/
[3] Alguns filósofos da ciência discutem a papel de sentimentos, emoções e crenças sobre o trabalho científico. Nesse sentido, é útil conhecer os trabalhos de Humberto Maturana e Paul Feyerabend, entre outros.
[4] Estimativa de falecimentos em território brasileiro entre março de 2020 e julho de 2022.
[5] A afirmação é conhecida como “Padrão Sagan”: https://pt.wikipedia.org/wiki/Padr%C3%A3o_Sagan
[6] Como discutido aqui: https://ccult.org/entre-ciencia-hipoteses-e-pseudociencias/

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