A ciência ruim e a ciência predatória utilizam uma credibilidade que não deveriam possuir

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Imagine que você seja um cientista e deseja divulgar para o mundo os resultados de suas pesquisas ou a sua análise sobre um determinado conceito. O que você faria? Um caminho muito utilizado na ciência é a publicação de um artigo científico em um periódico. Diferente de uma revista de divulgação científica, cujos textos possuem linguagem muito mais acessível e, em geral, apresentam o conhecimento para um público não especializado em um tema, os periódicos científicos são publicações altamente especializadas, cuja circulação, em geral, se restringe a cientistas e a jornalistas ou divulgadores científicos.

Só que entre o seu artigo ser enviado e ele ser efetivamente publicado, há um caminho com alguns “pontos de parada” que costumam ser estabelecidos como uma maneira de (tentar) trazer maior qualidade no que será publicado. É uma via de mão dupla: você quer que o seu artigo tenha o maior alcance possível, enquanto o periódico que vai publicá-lo deseja ter grande credibilidade; uma das formas estabelecidas para que algum cientista possa ter indícios dessa credibilidade é o fator de impacto da revista, isto é, o quanto os artigos publicados por ela efetivamente promovem debates na comunidade científica. Outra forma, talvez um pouco mais conhecida do público geral, é a revisão por pares: um grupo de cientistas da mesma área do tema do artigo avalia a fundamentação teórica e os resultados apresentados no artigo candidato a publicação.

Como é de se imaginar, o processo para que tudo seja avaliado não é rápido. Quanto mais influente é uma revista científica, maior é a procura para que artigos sejam publicados nela. Isso gera um ciclo de demanda por qualidade e investimento que nem todo mundo pode utilizar:  os artigos publicados precisam beirar a perfeição teórica e analítica para serem publicados em periódicos de prestígio onde a alta demanda aumenta os custos financeiros das publicações que não podem ser bancados por todos os pesquisadores, que, em geral, dependem de financiamento para produzir ciência de alta qualidade e submeter os seus artigos.

E como é preciso publicar para que os pesquisadores tenham acesso aos financiamentos que farão toda esse ciclo acontecer, tempo acaba virando uma moeda de grande valor. E é aqui que os chamados “periódicos predatórios” aparecem para lucrar com a necessidade de cientistas que precisam inflar a quantidade de artigos publicados ou dar um verniz de credibilidade a pesquisas cujos resultados apresentam um sério conflito de interesses — como a pesquisa que relacionava a menor incidência de covid-19 entre fumantes que era financiada pela indústria do cigarro [1].

Esses periódicos costumam ter um corpo editorial com formação inadequada para avaliar os artigos enviados para serem publicados. E a ideia é justamente essa: ser um mecanismo “acessível” para que qualquer trabalho seja publicado no menor tempo possível. Assim, ao invés das semanas de avaliação em que um artigo permanece sob análise e revisão, artigos são publicados em dias.

A questão em si não é apenas o que é publicado ou onde se dá a publicação. Existem formas que cientistas podem usar para evitar que o seu trabalho seja submetido a um periódico predatório ou que você acabe baseando a sua pesquisa em material questionável.  O maior problema aqui talvez seja a derrubada da credibilidade do conhecimento científico perante o público quando artigos com ciência ruim são utilizados para defender interesses que no fim das contas, são prejudiciais à própria população.

Ciência ruim é um risco porque envolve resultados que podem interferir na vida das pessoas. Nos últimos anos – especialmente durante os anos agudos da pandemia de covid-19 – o acesso e a divulgação de artigos científicos cresceram vertiginosamente — o que incluiu o acesso a artigos que não passaram por uma revisão criteriosa dos pares. Estatisticamente, a chance de se deparar com um artigo pulicado em um periódico predatório é grande: segundo este estudo [2], 8000 periódicos predatórios publicam mais de 420 mil artigos por ano. Isso corresponde a quase vinte por cento da produção cientifica anual!

O assunto é tão sério que a União Europeia financia uma plataforma sobre ética e integridade em pesquisa científica. A “The Emabassy of Good Science”, acessível aqui , traz recursos sobre os temas que ajudam a entender as dimensões que a ciência ruim pode trazer em nossas vidas.

Por isso, é preciso muita cautela quando se lê a respeito de “descobertas científicas” ou de resultados de análises que envolvem substâncias ou tratamentos médicos. Mais do que saber como esses estudos são realizados [3], é também importante conscientizar sobre as condições nas quais ele foi publicado: se é um preprint, se o estudo foi revisado por pares, se há conflitos de interesses. E isso não um problema que só cientistas deveriam se preocupar. Se a pandemia de covid-19 nos ensinou alguma coisa, foi que o conhecimento científico pode ser deturpado para encaixar diferentes interesses — o caso da hidroxicloroquina é o mais famoso, que não nasceu necessariamente de ciência ruim, mas que ganhou notoriedade mundial a partir de estudos nada criteriosos, repleto de conflitos de interesse e de metodologia inadequada ou de resultados deturpados [4] para caber numa conclusão pré-estabelecida — e errônea — da realidade.

Afinal, quando ciência ruim tenta se vender com a mesma credibilidade, ela afeta a confiança sobre todo o sistema científico — especialmente o sistema ideal de ciência, que luta para minimizar os seus erros e deixar às claras seus interesses e limitações. Se não temos como diferenciar uma da outra, como vamos conseguir defender a prática científica ou evitar o seu mau uso?

Se você pretende publicar um artigo, procure fazê-lo em uma revista que não seja predatória. Em geral, esses periódicos procuram seus autores oferecendo a publicação instantânea de seus artigos (não sem antes lançar alguns elogios sobre a sua pesquisa ou citando outras publicações de sua autoria), disfarçando o sistema de revisão com uma pré-aprovação sem sentido e oferecendo a publicação de seu texto em periódicos que não são sequer indexados. Ou seja: a chance de sua pesquisa cair em uma espécie de “limbo de invisibilidade” é grande — fora o seu trabalho cair em descrédito porque foi publicado em um periódico que é conhecido por ser composto de ciência ruim.

Nem sempre é fácil identificar um periódico predatório. Alguns indicativos, como um sistema de submissão revisado por pares, indexação, ISBN são bons indicativos. Em todo caso, você sempre pode recorrer ao Think Check Submit para verificar a credibilidade de um periódico. Ou até para encontrar um para enviar o seu artigo.

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[1] https://super.abril.com.br/ciencia/estudo-que-relacionava-tabagismo-a-menor-chance-de-ter-covid-19-e-retirado-do-ar/
[2] Disponível em: https://bmcmedicine.biomedcentral.com/articles/10.1186/s12916-015-0469-2
[3] Mais em: https://ccult.org/o-que-sao-os-protocolos-de-pesquisa-medica/
[4] Discutimos sobre isso no texto disponível em: https://ccult.org/paes-com-bolor-e-a-pesquisa-com-cloroquina-por-que-voce-precisa-entender-como-as-pesquisas-de-medicamentos-funcionam/

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Para saber mais:

Imagem de destaque por Freepik

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