As iniciativas de divulgação do conhecimento científico para qualquer pessoa interessada, principalmente para quem não é cientista ou tem contato direto e recorrente com a produção do conhecimento científico existem há pelo menos duzentos anos – levando-se em conta, claro, iniciativas datadas em relação a história ocidental.  

Se no século XVII tínhamos a divulgação do conhecimento científico patrocinada por sociedades cientificas ou instituições de financiamento, como a The Royal Society of London for Improving Natural Knowledge (ou Sociedade Real de Londres para o Melhoramento do Conhecimento Natural, em tradução livre), em que os próprios cientistas apresentavam suas descobertas e realizavam demonstrações experimentais, hoje podemos encontrar outros atores procurando levar os conhecimentos das mais diversas áreas da ciência para cada vez mais gente. É o caso, por exemplo, dos jornalistas científicos, divulgadores científicos e entusiastas da ciência, que não precisam ser necessariamente cientistas para divulgar e discutir descobertas, questões políticas e sociais que envolvem o conhecimento científico ou a relação entre cientistas e a sociedade e possuem um “palco” muito mais amplo para divulgar a ciência: revistas de divulgação científica, sites e blogs, canais no YouTube ou páginas no Facebook costumam estar entre os primeiros locais onde alguém encontrará este tipo de trabalho disponível para o público em geral. 

Só que cientistas nem sempre podem estar envolvidos em iniciativas de divulgação científica, ainda que essas iniciativas envolvam diretamente o contexto de sua pesquisa. Além da vontade em desenvolver este tipo de trabalho – a pesquisa científica pode ser cansativa o suficiente para que algum cientista simplesmente prefira dedicar seu tempo a ela e deixar de lado outras iniciativas -, existem barreiras sociais e até financeiras para isso. Afinal, falar sobre ciência nos dias atuais pode ser encarado como um ato político e de imediato recebe a sugestão de censura por outros setores da sociedade. Além disso, fazer vídeos, gravar podcasts ou produzir materiais audiovisuais demanda tempo e investimentos em equipamentos que não são, por si só, garantia de retorno dos valores investidos do bolso do próprio cientista ou pesquisador. E soma-se a isso tudo a falta de ambiente propício para que as pessoas de fora do ambiente acadêmico possam frequentar ou interagir em sessões de divulgação científica. Esta ideia enraizada no imaginário popular de que o ambiente universitário e os locais em que ocorrem palestras e outras iniciativas de divulgação do conhecimento cientifico é uma barreira considerável: pode-se supor, por exemplo, que o cientista é inteligente o suficiente para considerar qualquer pergunta levantada pelo público como burra – quando, na verdade, seja exatamente isso que se espera dos ouvintes – e que por isso mesmo, a presença neste tipo de evento é desnecessária, quando não inconveniente. 

Então, na tentativa de tornar o conhecimento científico, cientistas e pesquisadores mais próximos das pessoas, diversas iniciativas nacionais e internacionais foram propostas. A mais famosa delas é o Pint of Science, que desde 2012 leva cientistas de diversas nacionalidades a bares e restaurantes espalhados no mundo todo para que façam palestras a respeito de suas pesquisas. Em 2019, o evento foi realizado em quase 400 cidades distribuídas em 24 países:

 

No Brasil, o evento acontece desde 2015 e cresce exponencialmente tanto em locais quanto em número de expectadores. Essa é mais uma evidência da urgência da diminuição do abismo entre cientistas, o seu trabalho e a população em geral – outras evidências são apresentadas, por exemplo, nas pesquisas de percepção pública da ciência e da tecnologia, em que o interesse por ciência é absoluto, mas o entendimento de suas práticas ou ao menos o conhecimento sobre a sua história é mínimo, isto é, presente em menos de 5% dos entrevistados. 

Obviamente, o Pint Of Science não é uma iniciativa que suprirá as necessidades da divulgação científica mundial. Mas reconhecidamente, o evento possui uma vantagem em relação a outras iniciativas (tão importantes quanto): o ambiente é convidativo o suficiente para que pessoas que desconheçam o ambiente universitário possam frequentá-lo.

Em 2020, o evento deverá ocorrer entre os dias 11 e 13 de maio. As cidades participantes deverão ser confirmadas nos próximos seis meses.