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Exploração espacial para crianças

Tudo começou com um chocolate surpresa. Talvez você não tenha idade para lembrar, mas nos tempos em que as barras de chocolates tinham tamanhos dignos, havia um produzido pela Nestlé que trazia, junto ao chocolate no interior da embalagem, cards em papelão com temas ligados à ciência e a tecnologia. Quando eu tinha uns dez anos de idade, havia conseguido, com a ajuda de um colega de sala, um álbum para colar as os cards e ter a minha coleção de imagens sobre a exploração espacial. Nunca mais olhei um ônibus espacial — e a exploração espacial como um todo — com os mesmos olhos desde então.

Aos dez anos, eu mal fazia ideia do que era uma licenciatura em física. Mas me encantei decisivamente por aquilo que via e lia nas páginas das enciclopédias ou livros de ciências na escola. Claro que não quero defender que o meu caso de amor com a ciência e com a astronomia seja um exemplo — afinal, sempre há o risco de uma referência anedótica colocar tudo a perder —, mas não é exagero pensar que o encantamento com o universo que nos cerca é algo que fascina as crianças desde cedo.

Então, se ser astronauta, viajar pelo espaço, descobrir novos mundos é parte do imaginário de crianças e de adolescentes, como podemos contribuir com o aprendizado sobre o universo? Como explicar para as crianças (ou entender, enquanto professores), que os astronautas flutuam, mas não é por conta da ausência da gravidade, ou como funcionam os satélites ou ainda, como se tornar um ou uma astronauta?

Um bom caminho é utilizar o lado lúdico da exploração espacial para apresentar o universo ou discutir a exploração espacial com os alunos. Entenda: apresentar o universo está muito mais ligado a discutir a sua origem, a sua formação, os planetas, a lua; a exploração espacial, por sua vez, tem como propósito discutir formas de levar seres humanos para fora do planeta Terra ou utilizar tecnologias para fazê-lo, seja para a pesquisa científica, seja para as telecomunicações ou ainda para reafirmar forças políticas e econômicas (embora seja compreensível que muitas vezes essas discussões tenham que ser suprimidas por diversas razões — algumas alheias a sala de aula, inclusive).

Lendo sobre o tema

Praticar a leitura temática, além de ser uma ferramenta de interdisciplinaridade, também é uma forma de ensinar e de aprender. A inclusão de temas de astronomia no ensino fundamental é uma prática cada vez mais encorajada no ensino, especialmente após a entrada em vigor da BNCC. Contudo, exceto itens elaborados para fins pedagógicos, como materiais elaborados por sistemas apostilados, raramente é possível encontrar algo que seja completamente adaptado aos propósitos e a rotina escolar. Fuja de materiais que prometam uma aula totalmente pronta (e isso vale para qualquer disciplina em qualquer nível). Por isso, criatividade e organização são as chaves para utilizar as leituras como parte de sua aula.  

Um bom exemplo de material sobre exploração espacial para ser utilizado com as crianças é a HQ “Um dia sem satélites”, produzida em parceria pela Bomcomics e o Gabinete de Gestão do Programa Espacial Nacional (GGPEN) de Angola, na África. Sim, o continente africano possui um sólido programa espacial, já enviou astronautas para o espaço e tem uma das histórias mais incríveis (ou inacreditáveis) sobre o tema, quando a Zâmbia sonhou chegar em Marte e esse deveria ser um ponto importante a ser enfatizado ao se discutir a exploração espacial: a curiosidade sobre o espaço é universal, de todos os povos, em todas as épocas.

Na história em quadrinhos, que você pode acessar e baixar gratuitamente aqui, os personagens vivem em um mundo sem os satélites de telecomunicação que todos os dias utilizamos — mesmo sem se dar conta disso. A história explica, ainda, como é feito o lançamento e o gerenciamento dos satélites e a física que existe no movimento dos equipamentos. Tudo numa linguagem simples e muito acessível para as crianças.

Há também os livros infantis, que trazem uma excelente introdução ao tema, ao misturar o lúdico, a fantasia e a ciência no imaginário infantil. Obras como “…E a lua sumiu”, de Milton Célio de Oliveira Filho (Maté, 2009. 32 p.) e “O Homem de Lata”, de Edson Lopes (Escarlate, 2019, 96 p.), discutem os corpos celeste e fenômenos, como as fases da lua, além de apresentar tópicos importantes sobre a exploração espacial, como a busca por vida em outros planetas, o funcionamento dos foguetes e a vida dos astronautas. Tópicos que sempre podem ser acompanhados por diferentes perguntas que não necessariamente possuem resposta conhecida ou definitiva — o que, pessoalmente, considero um dos encantamentos que a ciência possui.

O “If the Moon Were Only 1 Pixel” (Se a Lua Tivesse 1 Pixel, em tradução livre) é um site relativamente simples criado pelo designer Josh Worth. Nele, a Lua é reduzida ao tamanho de um pixel, ou seja, ao tamanho do menor ponto de cor de uma tela. Ou seja: um “pinguinho” menor do que um grão de areia representa a Lua, que tem mais de 3400 km de diâmetro. Aqui, o interessante é a possibilidade das escalas de tamanho que os objetos celestes, como os planetas de nosso sistema solar, possuem entre si. No site, é possível selecionar a escala de medida, desde anos-luz até tamanhos de ônibus e de baleias azuis. Basta rolar a tela e as informações são apresentadas à medida em que você chega nelas – o que pode ser muito chocante para crianças e adultos, especialmente quando você experimenta o modo automático e percebe o que significa demorar 8,5 minutos para que a luz do Sol atinja o nosso planeta — o que, na escala de ônibus, equivale a percorrer 12.027.995.389,9 ônibus enfileirados!

Tela do site “If the Moon Were Only 1 Pixel” apresentando as informações básicas de distância de Júpiter | Reprodução.

Atividades lúdicas

Quanto a atividades lúdicas, existem opções bem interessantes, como construir modelos de sistema solar utilizando materiais reciclados contar a história das naves que já foram ao espaço a partir de teatros.

Também é possível realizar sequencias didáticas sobre o tema que apresentam diversas etapas da preparação para a exploração do espaço. Isso inclui o treinamento e a formação de um astronauta, a construção de naves espaciais, o retorno para a Terra, entre outras coisas.

Uma opção interessante é apresentada no artigo “Explorando o espaço na educação infantil: relato de uma intervenção pedagógica lúdica” (SILVA et. al., 2018) [1]. No texto, os autores apresentam uma sequência didática com quatro etapas relacionadas a exploração espacial:

  1. Circuito com obstáculos feitos com bambolês e cordas, simbolizando o treinamento físico e a entrada em um foguete espacial
  2. Roda de conversa para o levantamento de conhecimentos prévios dos alunos sobre o sistema solar e a exploração do espaço; em seguida, foi proposta uma atividade em grupo, em que cada equipe representava um planeta e deveria responder a perguntas temáticas a respeito do clima, órbita, tamanho, etc.
  3. Expressão artística do que aprenderam nas etapas anteriores
  4. Socialização do conhecimento, em que os alunos discutiram aquilo que mais lhes chamou a atenção sobre os planetas estudados.

Também é possível utilizar o caráter lúdico da exploração espacial a partir de visitas a centros de pesquisa, universidades e museus sobre o tema. O Memorial Aeroespacial Brasileiro, localizado na cidade de São José do Campos (SP), é uma ótima referência sobre o tema, especialmente pela coleção de equipamentos aeroespaciais desenvolvidos pelo Brasil. Além disso, o Museu Catavento possui um acervo fixo de Astronomia em sua exposição.

Além disso, o Google Arts & Culture possui uma coleção exclusiva sobre a exploração espacial (clique aqui para acessar). Nela, é possível explorar as missões Apollo e fazer um tour em 360° pela Estação Espacial Internacional, além de conhecer a biografia de personagens de destaque na história da exploração do espaço. Tudo disponível de forma gratuita e amigável aos tradutores online, como o Google Tradutor, e a leitores de tela ou softwares de acessibilidade.

Explorar o espaço é explorar tudo o que podemos ser.

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F. C. Gonçalves

Flávio “F. C.” Gonçalves é mestre em ciências pela Escola de Engenharia de Lorena (EEL-USP) desde 2019, além de licenciado em Física pela Universidade de Taubaté (Unitau) desde 2010, mesmo ano em que passou a atuar no ensino de Física nos níveis fundamental e médio. Como não sabe desenhar nem tocar nenhum instrumento musical, tampouco possui habilidades para construir qualquer tipo de artesanato, restou-lhe a escrita: “quando não sei o que dizer, escrevo”, diz. Desde criança é entusiasta do conhecimento científico. Da sede de querer conhecer mais sobre o mundo veio a paixão pela Astronomia. E quando menos percebeu, estava escrevendo e falando sobre o conhecimento científico para quem quisesse ler ou ouvir.

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