Dez tópicos de prevenção à desinformação científica

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Um dos clássicos na área de divulgação científica em estatística foi lançado em 1954 e continua tão atual quando possível. A obra de Darrel Huff tem o sugestivo título “Como mentir com estatística” e apresenta em suas 160 páginas formas em que dados estatísticos podem ser utilizados para manipular informações e fazer com que pessoas tenham conclusões errôneas sobre questões cuja análise estatística foi — propositalmente ou não — deturpada.

O título não é sensacionalista (e, portanto, não se enquadra do “efeito Datena” apresentado a seguir). Dá para mentir deturpando a estatística ou qualquer outra área do conhecimento, especialmente o conhecimento científico. Muitos indivíduos aproveitam a confiança que a ciência recebe da sociedade para deturpar resultados. Não raro, também aproveitam para defender pesquisas que são flagrantes práticas de ciência ruim.

E isso é de uma importância imensa, já que temos uma relação profunda com as consequências do conhecimento científico e tecnológico em nossas vidas. Se é verdade que hoje vivenciamos um rápido avanço em questões cruciais, como o (rápido) desenvolvimento de vacinas em meio a pandemia de covid-19 ou o crescente acesso à informação por meio da internet, também é verdade que precisamos aprender como esse tipo de conhecimento é desenvolvido, discutido, referendado.

Pode-se argumentar, com certa razão, que o desenvolvimento do conhecimento científico é complexo, repleto de nuances e de relações profundas e numerosas. Mas limitar o acesso à informação sobre este conhecimento partindo dessas premissas é limitar tanto o acesso – conhecer a ciência seria para poucos — quanto a liberdade das pessoas em discutir questões científicas. Afinal, saber de um estudo sobre um determinado tema de interesse não precisa ser limitado a saber as conclusões sobre ele; pode-se, com algum esforço, possibilitar que mais e mais pessoas consigam compreender as razões, os passos, as discussões e toda sorte de informações sobre o assunto em questão.

Então, o que seria possível ser feito a respeito para permitir que as pessoas tenham suas próprias ferramentas para analisar informações científicas? Será que só o conhecimento teórico sobre um assunto é o bastante? Ou apenas o acesso ao produto bruto dos cientistas – os artigos científicos, por exemplo — já seria suficiente?

A seguir, levantarei alguns tópicos relacionados à informação científica ao mesmo tempo em que tentarei apresentar formas de evitar a desinformação sobre eles. Claro que esta é apenas uma breve proposta que espero que você possa utilizar para ter como ponto de partida e aplicar sempre que possível quando necessitar avaliar uma informação científica.

#1 – Saber conceitos não é saber ciência
Do mesmo modo que ter nascido numa cidade litorânea não te faz um exímio nadador, saber diversos conceitos, diversas leis e teorias não faz de você alguém que sabe sobre ciência. É fundamental que você compreenda como os conhecimentos científicos, novos ou não, ganham relevância e concordância entre os cientistas. Por isso, busque sempre verificar a visão da comunidade de cientistas sobre questões do escopo do conhecimento científico.

#2 – Os métodos importam. E eles variam
Esqueça a ideia de que cientistas sempre ficam de olho vivo em um tubo de ensaio. Existem vários métodos para se fazer ciência e eles importam quando vamos discutir os conhecimentos obtidos em alguma área. Por exemplo, em pesquisas para o desenvolvimento de vacinas, há a preocupação em evitar o efeito placebo, de modo que os participantes da pesquisa não sabem se receberam o princípio ativo ou uma substância ineficaz. Em pesquisas estatísticas, é sempre importante que a sua amostra tenha seja proporcional à população para evitar o risco de resultados enviesados, como discutimos aqui.

#3 – Números podem ser usados contra você
Qualquer um pode tentar usar os números para transmitir informações falsas. Por exemplo, com gráficos fora de escala ou apresentando correlações absurdas, como o famoso levantamento que correlaciona o número de afogamentos em piscinas com o lançamento de filmes em que o Nicholas Cage aparece.

Correlações sem qualquer sentido real podem ser uma armadilha. Observe que a medida que Nicholas Cage lança um filme, o número de afogamentos em piscinas (linha vermelha) cresce na mesma proporção | spurious correlations

Ou, para ser mais claro, correlação nem sempre aponta a causa

#4 – Ninguém sabe tudo
Não se trata apenas de observar a ocorrência do Efeito Dunning–Kruger (aquele em que pessoas tendem a superestimar a sua habilidade quando sabem pouco sobre algo), mas também ser crítico: as informações que são passadas por alguém tem relevância para o debate ou servem apenas para tentar trazer um ar de superioridade intelectual?

#5 – Onde li sobre isso?
Como consequência, é importantíssimo saber verificar a fonte de informação e o seu contexto, especialmente diante de informações científicas. Um preprint não é um artigo científico, do mesmo modo que um artigo científico pode ser publicado mesmo se ele for resultado de práticas de ciência ruim. E não se engane pelo nome: como editoras de periódicos formam grandes conglomerados, alguns artigos de qualidade duvidosa podem ser publicados sob o guarda-chuva dessas editoras. Muitas informações para checar? Alguns pontos podem ajudar: cheque a informação por si mesmo e confira se o periódico possui revisão por pares (essa informação é apresentada na página do artigo) e qual a sua credibilidade no meio científico. Um dos índices que medem essa credibilidade é o qualis da Capes.

#6 – Alegações e evidências
Aqui vale a máxima popularizada por Carl Sagan: “alegações extraordinárias exigem evidências extraordinárias”. Se alguém aparece com um estudo cujo resultado aponta para a cura do câncer (uma alegação extraordinária), ele precisa apresentar todas as evidências que demonstrem isso [1]. As alegações serão verificadas pela comunidade acadêmica e podem ser ou não aceitas com o passar do tempo e dos estudos independentes.

#7 – Como os outros cientistas percebem isso?
Cientistas, em geral, são reativos quando novos resultados apresentam conclusões controversas. Novas pesquisas serão aplicadas, novas análises serão feitas para se entender o que pode ou não estar errado. E, claro, há o trabalho sério de jornalistas de ciência e de divulgadores científicos que podem ajudar você a encontrar a visão da comunidade científica sobre um ou mais temas científicos.

#8 – Cuidado com o efeito Datena
Como expliquei aqui, o “efeito Datena” é a minha maior contribuição para o mundo é a adoção de termos sensacionalistas para citar, apresentar ou discutir fenômenos naturais ou qualquer evento científico (como chamar o eclipse lunar de “lua de sangue” ou o bóson de Higgs de “partícula de Deus”). Há uma imensa quantidade de perfis que se vestem de divulgadores da ciência, mas que na verdade, só fazem sensacionalismo na cara dura.

#9 – Ainda mais cuidado com a (des)infodemia
Excesso de informação — ou infodemia — também é prejudicial. Excesso de informação ruim, que atua contra itens como a liberdade de expressão ou que restringe o acesso a outras fontes, é ainda pior. Se sentir que está confuso com as informações sobre ciência que recebe, respire fundo, faça uma pausa e retome aos poucos a sus busca por informação. Não compartilhe informações no calor do momento: a chance de você propagar informação incorreta é grande.

#10 – Quais seriam os interesses?
Certas informações, especialmente em grupos cujos membros possuem uma visão de mundo muito parecida, são ideais para reforçar o senso de urgência e as crenças sobre o mundo. Outras informações podem ser divulgadas para tentar fazer com que medidas importantes sejam desacreditadas ou atuar como ponto de fuga da realidade. Portanto, procure sempre ter em mente a pergunta “a quem interessaria que essa informação fosse divulgada”: se é para o bem coletivo ou para atuar como defesa do ponto de vista de um grupo restrito?

Entenda a lista acima como pontos de partida que abrangem grande parte das áreas do conhecimento científico.

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[1] Como exemplo, o caso da fosfoetanolamina sintética, substância que erroneamente foi utilizada como medicamento para o tratamento do câncer. Sua produção e introdução ao tratamento médico foi realizada durante anos sem respeito aos protocolos de pesquisa médica. Relembre o caso aqui: https://www.unicamp.br/unicamp/index.php/ju/noticias/2018/04/03/fosfoetanolamina-de-pilula-do-cancer-caso-de-policia

Imagem de destaque por pch.vector

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