A pelota de Onizuka e outros simbolismos

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Missões espaciais também são atos simbólicos. Muito mais do que levar pessoas ou equipamentos para fora do planeta, explorar o espaço deixa marcas em realizações da cultura humana: desenvolvimento de novas tecnologias, novos marcos para o conhecimento humano, a força política que determinado país deseja apresentar. E relações humanas, que fundamentalmente, são as responsáveis diretas para que tudo isso aconteça.

Por mais que astronautas, cosmonautas, taikonautas ou chandronautas [1] sejam seres humanos que vistos como pessoas de muita coragem e amplo conhecimento, isso não os define ou os resume. Enquanto seres humanos, astronautas são dotados de histórias pessoais que são tão inspiradoras quanto geram um aperto no coração.

La pelota

Eu não lembro exatamente quando foi a primeira vez em que assisti a reportagem clássica do Jornal Nacional que narrava o acidente com o ônibus espacial Challenger, ocorrido em janeiro de 1986. Deve ter sido nos primeiros anos em que finalmente tive acesso à internet, já quase no fim da graduação. Portanto, eu já era adulto quando soube em detalhes do que tinha acontecido naquela manhã. E mesmo depois de ter revisto o acidente em inúmeras transmissões da reportagem em questão – eu uso o material como parte de minhas aulas sobre a exploração espacial – eu ainda sinto certo horror e certa angústia ao ver um dos foguetes explodindo, colapsando todo o ônibus espacial, segundos após comandante declarar “roger” (entendido) após receber as instruções para dar potência total aos propulsores.

O acidente com a Challenger foi particularmente difícil para a moral do programa espacial dos Estados Unidos. Sobrevivendo aos constantes cortes de verba e aos ataques de políticos e da população que não viam na exploração espacial a prioridade número um de seu país, a NASA teve que dar um jeito para melhorar as suas relações públicas. Como mostra o documentário “Challenger: Voo final” (Netflix, 2020), um dos planos para trazer maior apelo popular as missões com os ônibus espaciais era incluir uma astronauta civil no corpo da missão. Após vencer a disputa com mais de onze mil candidatos, Christa McAuliffe (1948 – 1986), então professora de história americana de uma escola primária de Concord High School em New Hampshire, foi selecionada para compor a STS-51-L.

Christa McAuliffe

Christa McAuliffe tornou-se celebridade nacional. Sua participação como especialista de carga na missão incluía uma aula magna de ciências transmitida diretamente da órbita do espaço para as escolas dos Estados Unidos. No dia 28 de janeiro de 1986, após alguns adiamentos por conta das condições climáticas — que mais tarde, se mostrariam determinantes para o desastre com a Challenger —, o lançamento finalmente aconteceu. Ao vivo, milhões de pessoas acompanhavam pela televisão — e outras milhares, em Cabo Canaveral, de onde o ônibus espacial fora lançado — todos os passos para aquela missão histórica. Os alunos da escola onde Christa McAuliffe lecionava se reuniram para assistir ao lançamento. Infelizmente, pouco mais de um minuto após o lançamento, o ônibus espacial explodiu. Nenhum dos sete tripulantes sobreviveu.

A história do acidente com o Challenger já seria suficientemente marcante com o ocorrido à professora McAuliffe e seus colegas astronautas. Afinal, simbolicamente, o espaço estava mais próximo de qualquer pessoa — e não mais restrito apenas aos poucos selecionados que passavam anos em treinamentos rigorosos. Mas Elisson Onizuka (1946 – 1986), engenheiro espacial nascido no Havaí e um dos especialistas de missão do fatídico voo da Challenger recebera uma bola de futebol. E como quase todas as bolas de futebol, ela produz encanto mesmo quando não está em jogo.

A pelota de Onizuka foi um presente de sua filha, Janelle Onizuka. A bola de futebol fora autografada por seus colegas de escola e dada ao pai para que pudesse levar consigo em sua missão ao espaço.

A bola de futebol dada de presente a Onizuka em exposição. Créditos: NASA.

Após o acidente com a Challenger, a bola — dentre outros objetos — foi resgatada e devolvida à família de Onizuka. Em seguida, a bola foi permaneceu em exposição na Clear Lake High School por cerca de trinta anos. Foi quando Shane Kimbrough, ao saber da história da bola exposta na escola, pediu permissão para a família e levou consigo em sua missão à ISS, em 2016. Após trinta anos, a bola de Onizuka finalmente chegou à órbita da Terra, em memória de Elisson e de todos os astronautas da Challenger mortos em 1986.

O último voo de Petr Ginz

O holocausto, um dos maiores horrores da história humana, ceifou a vida de milhões de pessoas. Entre elas, estava Petr Ginz, que ainda adolescente, foi levado para um campo de concentração onde fora assassinado numa câmara de gás. Petr produziu dezenas de desenhos e pinturas [2], além de um diário que fora publicado postumamente [3]. Dentre obras produzidas por ele, há o famoso desenho “Moon Landscape”, que mostra como seria a Terra vista do espaço (lembre-se que a humanidade só viu o planeta por fora, pela primeira vez, em 1946).

Moon Landscape, por Petr Ginz. | Israel Science and Technology Directory

Infelizmente, Ginz não sobreviveu ao holocausto. Entretanto, o seu desenho sobre a Terra resistiu ao tempo e foi entregue ao primeiro astronauta israelense da história, Ilan Ramon (1954 – 2003). Ramon era tripulante da STS-107, missão realizada a bordo do ônibus espacial Columbia, que passou dezesseis dias em órbita antes de se desintegrar na atmosfera da Terra em 2003, matando os seis tripulantes da missão e destruindo o original do desenho feito por Ginz.

Treze anos depois do acidente fatal com o Columbia, o astronauta estadunidense Andrew Feustel levou uma cópia do desenho Moon Landscape, registrando a imagem abaixo a bordo da ISS. Os sonhos de Ginz permaneciam perto das estrelas.

Andrew Feustel a bordo da ISS com uma cópia do desenho feito por Petr Ginz. | NASA / WIKIMEDIA COMMONS

O chapéu de Dummont

Eu não canso de pensar que o mais incrível da exploração espacial é a superação constante de si mesmo. É isso que fica como legado, afinal.

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[1] Todos os termos são referentes a humanos que viajam para o espaço. Contudo, cada um revela a origem (e um pouco da disputa política) pelo poder: enquanto o termo “astronauta” se aplica em quase todo o ocidente, a Rússia e alguns países do leste europeu adotam o termo “cosmonauta”; os chineses utilizam o “taikonauta” para se referir aos seus homens e mulheres do espaço e a Índia adota o “chandronauta” com a mesma intenção.

[2] O Google Arts & Culture possui uma exposição permanente das obras de Ginz.

[3] O diário de Petr Ginz não possui edição em língua portuguesa. A edição em inglês tem o título de “he Diary of Petr Ginz, 1941–1942“.

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Para saber mais:

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