Três anos em um dia

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Em uma tarde há exatos três anos, o ccult.org oficialmente entrava no ar. E, de longe, é o projeto pessoal mais legal que já conduzi em minha vida. Ter um espaço onde consigo discutir o conhecimento científico, apresentando-o como um empreendimento social que não é desassociado da sociedade é uma responsabilidade gigantesca. Comunicar ciência vai muito além de uma pretensa neutralidade que não existe ou de apresentar fatos aleatórios que sequer abrem espaço para uma visão crítica sobre o conhecimento e as suas conexões com o mundo.

Comunicar ciência é apresentar e expandir os horizontes do conhecimento humano. É respeitar os saberes antigos como parte de uma construção tão genuína quanto a própria construção da ciência, permitindo que o acesso ao conhecimento científico seja, de fato, democrático.

Ao longo desses trinta e seis meses de existência, esses foram os propósitos fundamentais do ccult.org e de minha atuação em sala de aula e nos espaços onde divulgo ciência. Seria contraditório desejar que o conhecimento científico seja valorizado sem demonstrar o porquê deste conhecimento ter que ser valorizado; defender os investimentos públicos em ciência – especialmente com as bolsas de pesquisa para graduandos e pós-graduandos – faz ainda mais sentido quando se compreende a complexidade da atividade de pesquisa, incluindo as atividades de pesquisa básica nas mais diversas áreas do conhecimento. Sem isso, corremos o risco de continuar a ver a perpetuação do discurso “mandamos naves à Marte enquanto crianças passam fome na Terra”.

Relacionar a prática científica com desperdício de dinheiro é uma forma (das mais efetivas, inclusive) de praticar o negacionismo científico. Não se trata de lançar a ciência ao altar de infalível ou de defender a independência completa e irrestrita a cientistas (este é um debate complexo que envolve questões profundas na própria concepção de ciência e de sua relação com a sociedade), mas sim, de demonstrar que a ignorância sobre os processos de discussão e de validação do conhecimento científico alimenta a visão de que a ciência tem pouco a contribuir com o mundo – ou, numa visão ainda mais ideológica, só contribui quando concorda comigo.

Talvez essa tenha sido a minha principal inquietação quando resolvi encarar a missão de levar o ccult.org para o mundo. Ainda antes de entrar no mestrado na Universidade de São Paulo, onde pesquisei sobre a formação da cultura científica em sala de aula, me chamava a atenção o fato de meus alunos responderem sim quando perguntados se a ciência era importante. Pouquíssimos conseguiam explicar por que ou onde estava a importância do conhecimento científico. Isso, em minha visão, não é uma visão emancipatória ou reflexiva sobre a ciência. Trata-se de um “maria-vai-com-as-outras” que empobrece o espírito e limita a curiosidade. Imaginem se todos os cientistas concordassem com as explicações anteriormente propostas por outros cientistas! Não teríamos, certamente, visões discordantes, avanços no conhecimento científico e, sobretudo, o ideal da autoridade do argumento (e sim, o argumento da autoridade).

Nesses três anos, produzi textos sobre a cultura científica, tentando me dedicar também ao tema dentro da sala de aula. Creio que um projeto como o ccult.org precisa ser, antes de tudo, um momento de trocas intensas de conhecimento. Não se forma um diálogo da noite para o dia, da mesma forma que não se realizam grandes tarefas sem grandes renúncias e imensa dedicação. Os últimos anos foram de intenso trabalho – cheguei a lecionar em quatro cidades diferentes, morando numa quinta cidade e dependendo principalmente do transporte público para me deslocar entre elas. Depois, com a pandemia, o fluxo, incertezas, demandas e adaptações do trabalho remoto foram um furacão para as energias. Ainda assim, muitos textos dos quais me orgulho vieram à tona durante os primeiros anos da pandemia como este texto sobre a eletrostática aplicada às máscaras N95/PFF2 na proteção contra a covid-19, ou este sobre os artigos científicos históricos (e que pretendo transformar em uma série e publicar periodicamente por aqui), ou ainda sobre a detecção de chuveiros cósmicos no túnel 9 de julho, em São Paulo.

Hoje o ccult.org tem a sua presença na internet e em redes sociais como o Twitter , Facebook e Instagram . Também foi ao ar em formato de áudio, em podcasts temáticos que também retornarão em 2022.

Os textos aqui publicados foram discutidos em cursos de pedagogia, de licenciatura e em cursos de formação de professores espalhados pelo país. Isso me orgulha demais e me faz sentir-me relativamente seguro para continuar a dar meus passos por aqui, sem se preocupar com os números, mas com a constante melhoria da qualidade do que é publicado. Mas, como já disse anteriormente, comunicar ciência é uma responsabilidade imensa que não pode ser minimizada em nome de likes ou de engajamentos. Não sou bom com dancinhas nem para manter o meu rosto enquadrado na câmera. Tento apenas ser a melhor versão de um divulgador científico que eu poderia ser. E isso tem que independer do tamanho de minha audiência.

Desde 2021, o ccult.org faz parte da RedLCC – Rede Latino-americana de Cultura Científica . Estar junto a blogs de ciência de todo o continente é algo que nunca imaginei que aconteceria. E tenham certeza: muita coisa interessante será realizada pela Red neste ano. Levaremos a cultura científica de qualidade, produzida por nossa gente, para o mundo todo.

Foi graças ao ccult.org que participei pela primeira vez como entrevistado em um podcast e ministrei duas palestras em eventos científicos da Universidade de Taubaté (onde fiz minha graduação) e pela Universidade Federal de São Paulo. Uau!

Olhar para o que foi feito e para o que possivelmente ainda virá dá um frio na barriga, igualzinho aquele que senti quando cliquei em “publicar o site” neste mesmo 26 de fevereiro. Mas esse é uma sensação boa: é uma sensação de esperança. Não tenho qualquer pretensão de me tornar referência em o que quer que seja; já me contento em ter contribuído com o aumento de conhecimento de pelo menos um ser humano – como escreveu o poeta Manoel de Barros: “não preciso do fim para chegar” .

Obrigado a cada um que leu, compartilhou, comentou, indicou, curtiu ou reclamou do ccult.org. Que mais muitos anos de vida nos permitam discutir o conhecimento científico e ampliar os horizontes e as cabeças pensantes desse e de todos os outros mundos que existam.

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