Eletrostática contra a covid-19

Foi na Grécia Antiga que a ideia primordial de o que nos constituía ganhou seus primeiros moldes. Não é uma ideia tão óbvia, mas ainda assim, é genial: se cortássemos a matéria em pedaços cada vez menores, chegaríamos a um pedaço que, de tão pequeno, não poderia ser dividido. Demócrito e outros contemporâneos trouxeram ao mundo a ideia do átomo (que, em grego, pode ser traduzido como “indivisível”) que, embora de constituição muito diferente daquela que atualmente conhecemos – afinal, hoje sabemos que o átomo não é indivisível e é constituído por partículas e subpartículas que são ainda menores do que o próprio átomo —, foi uma guinada importante na tentativa de explicação e de visão de mundo.

Claro que experimentos atômicos e aceleradores de partículas não faziam parte do rol de mecanismos de um filósofo natural naqueles tempos. Dispositivos com essa capacidade surgiram apenas no século XX. Mas experimentações (que não eram práticas que visavam verificar experimentalmente algum modelo, e sim, apenas entreter) que revelavam a natureza atômica da matéria já existiam e uma delas é famosa até hoje: a eletrização por atrito. Consiste no seguinte: pegue uma caneta esferográfica e esfregue-a em seus cabelos por alguns segundos. Depois, aproxime a parte que você atritou em sua cabeça em pequenos pedaços de papel (ou da ponta de uma folha) e veja o que acontece: o papel é atraído pela caneta e, em muitos casos, acaba “grudando” na superfície e na ponta metálica. Ou, se preferir, esfregue o corpo de uma caneta em uma parede lisa, sempre no mesmo sentido e você vai perceber que o tubo ficará preso como se tivesse sido colado na parede.

Tales de Mileto percebeu o mesmo tipo de fenômeno, só que com objetos diferentes: ao atritar o âmbar (uma resina fóssil originária da seiva de árvores) em pedaços de lã, ele ficava suscetível a atrair corpos leves.

Ilustração do resultado após a eletrização por atrito, onde o âmbar é esfregado em um tecido e, com isso, ganha a propriedade de atrair pequenos objetos, como penas de aves | Mundo da Elétrica.

Esse fenômeno observado por Mileto — ou por você quando atritou a caneta em seus cabelos — é conhecido como eletrização por atrito. Existem outras formas de eletrizar um corpo, mas todas elas resultam na mesma coisa: em um desequilíbrio na quantidade de partículas negativas (chamadas elétrons) e de partículas positivas (conhecidas como prótons). Naturalmente, os objetos são naturalmente neutros, isto é, possuem o mesmo número de cargas elétricas positivas e negativas em sua constituição, então, só percebemos os fenômenos eletrostáticos quando esse desequilíbrio é produzido.

Ao atritar o cano de PVC, ele passou a ficar eletrizado (eletrização por atrito) e passou a influenciar o comportamento do corpo dentro do recipiente | Reprodução YouTube.

Fenômenos eletrostáticos existem aos montes e são aplicados em diversas tecnologias. Raios, fotocopiadoras, telas e-ink (como as telas do Kindle). Todos eles têm na eletrização a explicação básica para a sua ocorrência/funcionamento.

Mas o que isso tem a ver com o combate a covid-19?

O uso de máscaras no combate a doenças em meio a epidemias e pandemias não é algo de nosso tempo. Durante a peste negra — doença causada pela bactéria Yersinia pestis que assolou a Europa e a Ásia no século XIV e aportou por terras brasileiras no finalzinho do século XIX —era comum que médicos utilizassem máscaras estilizadas como essas:

Máscara pelos médicos durante a peste negra na Europa | Freepik.

Já durante a pandemia de gripe espanhola, o uso de máscaras pela população também era estimulado tal qual em nossos tempos:

Voluntárias em Oakland fazem máscaras durante a pandemia da Gripe Espanhola ( 1918-1919.). | Reprodução de: Oakland Public Library

Enquanto equipamento de proteção individual (ou EPI), as máscaras são utilizadas em ambientes como fábricas, construção civil, extração ou manipulação de produtos químicos e, claro, em clínicas e em hospitais. Existem diferentes tipos de máscaras, com diferentes tipos de aplicações e de mecanismos para proteger seus usuários.

E é aqui que o âmbar atritado contra a lã lá na Grécia Antiga ganha relação com os dias atuais. O tecido das máscaras oferece uma barreira física eficiente contra a disseminação do vírus, já que a malha e outros constituintes da máscara, em nível microscópico, tem tamanho menor do que o do vírus. Entenda-se como barreira física eficiente aquela que não permite a passagem do vírus de fora para dentro da máscara e da máscara para fora dela. E essa eficiência será melhor quanto melhor for a proteção eletrostática oferecida pelo tecido.

Cada material consegue oferecer um nível de proteção diferente – que está relacionado com a capacidade do tecido em eletrizar as gotículas que podemos emitimos ao falar, tossir e espirrar. É por isso que as máscaras de uso profissional, como a N95, possuem várias camadas de diferentes tipos de tecido: ao colidir com elas, as gotículas se atritam com o tecido da máscara e, por atração eletrostática, ficam presas nas tramas do tecido que compõem a máscara. Essa proteção tem tempo limitado, pois a máscara pode ficar úmida ou suja e com isso, diminuir essa proteção eletrostática e a barreira física que o tecido pode oferecer a passagem do vírus pela máscara. Por isso, nas últimas semanas, tem-se discutido a possibilidade de uso de duas máscaras na proteção contra o novo coronavírus.

Proteção oferecida por máscaras de diferentes tipos | Freepik

Sim, um dos principais mecanismos de proteção contra a covid-19 atua com base no mesmo fenômeno que faz com que aqueles pedacinhos de papel sejam atraídos pela caneta que é esfregada no cabelo. Mas é preciso ter em mente que a eletrostática que ajuda a te proteger contra os vírus não faz milagre: máscaras de crochê, tricô ou cujo tecido seja muito fino não te protegem contra a covid-19 (ou outras doenças) pois não oferecem nenhuma barreira física nem eletrostática. Do mesmo modo, usar máscaras umedecidas ou que não se ajustem totalmente ao rosto, deixando frestas por onde o vírus pode passar, é ineficaz contra a doença.

Use máscaras. Elas salvam vidas com um mecanismo muito simples, mas muito eficiente e igualmente belo. Quem diria que os filósofos naturais na Grécia Antiga tinham em mãos — literalmente — um mecanismo que poderia nos ajudar a sobreviver séculos depois, não é?

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Para saber mais:

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Referências:

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