O “Habemus Papam!” de oito de maio anunciou a chegada do quinto papa do século XXI. Pouco cotado entre os favoritos, o cardeal estadunidense Robert Francis Prevost foi eleito papa, adotando o nome de Leão XIV.
A eleição de um papa sempre atrai a atenção do público, mesmo entre aqueles que não são fiéis da igreja católica. Sempre é interessante saber os percursos e as histórias e as vivências do eleito que liderará uma religião com mais de um bilhão de adeptos. E na era das notícias urgentes, a informação de que Leão XIV é formado em Matemática não passou nem um pouco desapercebida. E não foi apenas pela formação do novo papa levantar as discussões entre ciência e religião: o verdadeiro potencial estava na suposta produção acadêmica do novo papa, com um artigo que discutia a probabilidade da existência de Deus.
As redes sociais e os sites de notícias logo foram inundados pela informação de que Prevost (ou seja, o papa) era o autor da obra “Probability and Theistic Explanation” (Probabilidade e Explanação Teísta, em tradução livre). O livro, lançado em 1990 e que não possui tradução para a língua portuguesa, compara duas abordagens teóricas para justificar a crença religiosa [1] foi escrito por um homônimo de Leão XIV, o matemático Robert Ward Prevost .

No livro, Prevost — matemático associado à Wingate University —, o autor critica as abordagens filosóficas de Richard Swinburne, que defende que a estatística bayesiana é uma ferramenta irrefutável para a prova de que Deus existe e de Basil Mitchell, que argumenta a favor do uso da lógica informal como método para se justificar estatisticamente a existência divina. Ou seja: o professor universitário Robert Prevost não discutiu a existência de Deus, mas sim, criticou duas visões acerca da existência de Deus que utilizam fundamentos científicos. Tudo muito distante do que manchetes como essa propagaram nos primeiros dias após a eleição de Robert Prevost.

Erros de notícia acontecem, ainda mais em um contexto em que as informações circulam rapidamente e parecem, pelo menos à primeira vista, críveis e, como neste caso, ideais para viralizarem por aí. Os primeiros tuítes sobre o livro do homônimo do papa — e que, claro, não destacavam se tratar de alguém com quase o mesmo nome — surgiram poucos minutos depois do anúncio no Vaticano, provavelmente após uma busca pelo nome o cardeal eleito no Google ou no Bing.
Um papa matemático, um texto sobre as discussões da existência de Deus escrito com alguém com a mesma formação, nome e um dos sobremenomes. Eraprobabilidades e a existência. Foi uma tempestade perfeita, como se diz por aí.
O engano se desfez após mais checagens e a publicação de alguns “erramos” nos portais de notícia [2]. Mas mais do que pensar a respeito da pressa na publicação de um texto [3], seria interessante pensar em algumas questões relacionadas com a própria cultura científica e, em alguma medida, na disseminação de notícias que envolvem ciência nos tempos atuais.
A primeira questão está na notícia em si: por que alguém escreveria um livro para “discutir estatisticamente a existência de Deus”? É preciso pensar que, em ciência, não existem assuntos dogmáticos: os temas podem e devem ser questionados, sempre a partir de lógicas metodológicas válidas que embasem os seus argumentos. Analisar dois pontos de vista para defender um terceiro, isto é, analisar o que dois autores pensam e concluir que um terceiro ponto de vista seria mais viável é uma forma muito ilustrativa sobre como o conhecimento científico se desenvolve. Prevost, não o papa, o professor, não quis provar que Deus existe ou não existe coisa nenhuma: ele apenas apontou as limitações, sob o seu ponto de vista, dos argumentos propostos por Richard Swinburne e Basil Mitchell para propor uma outra visão. Isto é, Prevost, o professor, não provou nada. E lembre-se: a prova na ciência não existe no sentido de irrefutabilidade: os conhecimentos, por mais assertivos que sejam, estão sempre com o carimbo de provisório na testa, de modo que podem ser, substituídos, por outro melhor — e este também receberá o mesmo carimbo de “provisório” assim que entrar nos caminhos científicos.
O segundo ponto está na publicação das obras acadêmicas. Claro que ninguém conseguiria prever com razoável precisão que um acadêmico dos Estados Unidos seria confundido com o papa eleito em 2025. Eu já discuti a importância do acesso aberto e o significado de alguns termos relacionados com a pesquisa científica e defendo que é preciso que a ciência abaixe as guardas da informação: precisamos deixar de ser Cristália [4], principalmente uma Cristália caríssima. Não se discute a necessidade da precisão teórica ou do uso da linguagem teórica na elaboração dos artigos. A questão está em como essa informação chega ao público. Se não a tornamos mais clara, corremos o risco de um homônimo ser indicado incorretamente na autoria de um trabalho — ou ainda pior: ter o trabalho em si deturpado em nome do engajamento nas redes sociais.
Daí também surge pensar em algumas alternativas para a identificação dos cientistas para fins de divulgação. Não me refiro a forma como fazemos por exemplo, em um trabalho acadêmico (quem nunca encontrou dois sobrenomes iguais em um artigo e descobriu, nas referências, que se tratava de pessoas diferentes?), mas nas informações gerais de autoria ou de contato onde livros, artigos e preprints ficam disponíveis para acesso. As pessoas habituadas com o meio acadêmico conhecem, por exemplo, a plataforma ORCID — que gera um identificador único de dezesseis dígitos para cada pesquisador cadastrado que pode, facilmente, ser associado a autoria de um ou mais trabalhos científicos [5]. Contudo, o uso do ORCID ainda não é frequente. A própria página que disponibiliza o livro de Robert Ward Prevost (o professor, e não o papa) traz apenas informações sobre as citações do autor — e ainda assim, após alguns cliques. Seria possível verificar que Prevost era apenas um homônimo do novo papa a partir dos cliques? Provavelmente sim. Mas não custaria nada deixar essa informação acessível para quem precisasse dela.
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[1] O livro está, como boa parte das publicações acadêmicas, em acesso fechado. Se você eventualmente desejar uma cópia do livro, precisa ser associado a uma instituição de pesquisa acadêmica que tenha o vínculo com a editora (leia-se: alguém que pague bem para acessar cada artigo publicado), conforme a política para a aquisição de livros ou comprar uma cópia por US$ 190 .
[2] Este publicado pelo G1 ficou absolutamente didático e melhor do que a notícia original (e incorreta): https://g1.globo.com/educacao/noticia/2025/05/09/homonimo-papa-leao-xiv-probabilidade.ghtml
[3] Incluindo o fato deste texto ter sido publicado trinta e nove dias (!) depois da eleição do papa.
[4] Cristália é a minha referência favorita para uma ciência carregada de erudição e que se vê como uma “torre de marfim” dos eleitos. Ela aparece na obra prima de Hermann Hesse chamada “O jogo das contas de vidro” (Record, 2020, 504 p.).
[5] A quem possa interessar, o meu ORCID está aqui, ó: https://orcid.org/my-orcid?orcid=0000-0002-4307-6967
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