CCULT LIVROS #8 – Os Reis do Sol

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Um hoax que se espalha pela internet de tempos em tempos (desde quando precisávamos de listas de e-mail e de arquivos de slides com design duvidoso) dá conta de que a Terra está por um fio. Não pela chegada de um meteorito (e se você quiser saber mais sobre os finais de mundo que foram anunciados por conta deles, pode conferir aqui sobre o apocalipse que não chega), mas sim, por conta de explosões solares carregadas de ondas eletromagnéticas que minariam toda a vida em nosso planeta.

Como boa parte dos boatos científicos de sucesso, esse hoax da morte vinda pelo magnetismo se apoia em algumas premissas verdadeiras para expor conclusões que deturpam os próprios fundamentos. Afinal, o Sol, de fato, emite ondas eletromagnéticas de grande intensidade — conhecidas por vento solar. Essas ondas se propagam em todas as direções e invariavelmente atingem a Terra, onde interagem com o nosso próprio campo magnético. Nas regiões próximas aos polos, essa interação entre os campos magnéticos é a responsável pelas famosas auroras boreais (ou austrais) que tanto encantam ao colorir o céu noturno.

E se hoje conseguimos explicar corretamente a origem as auroras polares e aplicar o magnetismo para muitas coisas — desde o armazenamento de dados nos SSD em nossos computadores até o pagamento por aproximação utilizando o NFC —, muito se deve ao desenvolvimento que o estudo do magnetismo (especialmente, ao magnetismo solar) teve a partir do século XIX. Nesta época, telégrafos começavam a se popularizar como meio de comunicação, enquanto no céu, tivemos o Evento Carrington em 1859. Os Reis do Sol, livro escrito pelo jornalista Stuart Clark e publicado no Brasil pela Editora Record em 2016 com tradução de Laura Rumchinsky e revisão técnica de Ronaldo Mourão conta como esse evento foi o ponta pé inicial para a astronomia moderna ao mesmo tempo em que apresenta a tragédia pessoal do astrônomo Richard Carrington.

Livro “Os Reis do Sol” | Reprodução.

As 252 páginas de Os Reis do Sol (que conta com índice remissivo e referências e encarte nas páginas centrais) apresentam o contexto da vida de Richard Carrington e de sua investigação sobre o fenômeno astronômico de proporções gigantescas: uma grande tempestade magnética que produziu auroras visíveis da Austrália e da costa chilena, muito distante de seus locais onde habitualmente auroras são visíveis. O evento, como apresenta o autor no prólogo e nos primeiros capítulos da obra, foi um divisor de águas na astronomia, que deixou de se preocupar apenas com o mapeamento das estrelas e planetas, e passa a também estudar sua estrutura e composição.

E esse é um dos grandes trunfos do texto de Clark: mostrar as relações humanas por trás das pesquisas científicas que são apresentadas no livro. Carrington teve de percorrer um grande caminho para conseguir ser ouvido e ter o reconhecimento da comunidade científica, ao mesmo tempo em que associações científicas lutavam para obter recursos para financiar o trabalho de seus membros. Essas situações podem parecer desassociadas, mas foi justamente a pesquisa sobre o magnetismo promovida pelos cientistas ingleses (de certa forma, foi a motivação das expedições antárticas, como já discutimos aqui) que permitiram a Carrington — então astrônomo amador — levantar a natureza magnética do evento de 1859.

Mas mais do que apresentar as relações e interesses envolvidos entre os cientistas contemporâneos de Carrington, Stuart Clark consegue trazer um olhar especial para a vida do astrônomo inglês, desde a sua formação acadêmica até os problemas em seus relacionamentos pessoais que tornaram a vida de Carrington caótica — e seu feito científico ainda mais fascinante. O olhar biográfico sobre o astrônomo inglês passa longe do sensacionalismo que autores menos comprometidos certamente apresentariam: a tragédia pessoal de Carrington é apresentada de forma sóbria, sem apelações ou floreios textuais para manter o leitor preso a leitura do texto.

Aliás, a leitura do texto é fluida em boa parte do texto. As notas de rodapé ao fim das páginas ajudam nesse sentido, mas a construção da narrativa que Clark utiliza também facilita as coisas. Mesmo colocando depoimentos e citações, elas não se alongam ou parecem ser colocadas apenas para preencher algum espaço. Mas isso cobra um pequeno preço: o grande número de informações. Não que elas não sejam valiosas para o livro, mas podem provocar uma pouco de cansaço — que, reitero, não diminui em nada a obra. Nesses momentos em que a leitura parecer um pouco mais “pesada”, é útil recorrer ao encarte de seis páginas que mostra diversas imagens relacionadas a vida de Carrington e as pesquisas em astronomia desenvolvidas no contexto do livro.

Os 13 capítulos do livro não são independentes entre si — o que é de se esperar numa obra como essa, que trata da história pessoal e da construção histórica da compreensão do magnetismo solar. Por isso, caso deseje aplicar a obra em sala de aula, talvez seja mais interessante apresentar enxertos do texto contextualizados para a melhor compreensão. Alternativamente, a leitura comentada do prólogo de “Os Reis do Sol” pode ser uma estratégia interessante para apresentar temas como: pesquisa científica em astronomia, fenômenos astronômicos, métodos científicos e contexto sócio-histórico da ciência.

O livro “Os Reis do Sol: a história do começo da astronomia moderna e da inusitada tragédia de Richard Carrington” está disponível no site da Editora Record e nos principais marktplaces do país em formato físico, impresso em papel off-white (exceto encarte).

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