Carl Sagan e as perguntas para os nossos visitantes extraterrestres

Foi em 09 de novembro de 1934 que veio ao mundo Carl Edward Sagan, um dos maiores cientistas do século XX. Conhecido por seu didatismo fora do comum, Sagan — que fora exímio astrônomo, cosmologista e astrofísico, com mais de 600 trabalhos publicados na área — ajudou a popularizar a ciência em uma época em que a informação audiovisual circulava basicamente pela TV ou pelas fitas de vídeo cassete que vez ou outra eram vendidas (ou pirateadas) por aí. Um de seus maiores esforços nesta área foi a produção e apresentação da série “Cosmos: Uma viagem pessoal”, famosa por trazer o universo da Astronomia (sem trocadilhos) para o público geral.

Sagan também escreveu livros de grande sucesso e que marcaram a divulgação científica mundial. Entre os vinte livros que escreveu ao longo da vida, o cientista foi premiado com o Pulitzer de Não Ficção em 1978 pelo livro “Os Dragões do Éden” (Gradiva, 212 páginas), que discute a evolução da inteligência humana, “Bilhões e Bilhões” (uma coletânea de artigos sobre temas variados e que examinam diversas questões do mundo sob o olhar científico), “O Mundo Assombrado Pelos Demônios” (Companhia de Bolso, 512 páginas), que debate com maestria a importância do conhecimento científico frente a uma de analfabetismo científico e misticismo presentes nos tempos atuais, “Contato” (Companhia das Letras, 424 páginas) — que foi adaptado para o cinema em 1997 — e “Variedades da Experiência Científica” (Companhia das Letras, 304 páginas), que reúne uma série de palestras de Sagan a respeito da existência de Deus e da vida inteligente em outros planetas.

A solidão humana na cosmos

Uma das tarefas de um divulgador científico é transmitir o conhecimento científico para todos os interessados, especialmente o público que não possui formação acadêmica na área em questão. Sagan o fazia com tamanho didatismo que qualquer um se impressionava e se colocava a pensar sobre o conhecimento científico explicado por ele. Um de meus exemplos favoritos desse fato é o trecho do episódio 12 da série “Cosmos” em que Sagan explica a equação de Drake (falo um pouco mais sobre a equação de Drake e a busca por vida extraterrestre neste link), uma equação que visa encontrar o número de civilizações inteligentes em determinada galáxia:

A química que produz a vida é reproduzida facilmente por todo o Cosmo. Se não existe vida fora da Terra, então o Universo é um grande desperdício de espaço” disse certa vez Carl Sagan em uma entrevista na Universidade de Boston (EUA). De fato, nosso universo tem um tamanho colossal e medi-lo não é da tarefa mais fácil do mundo. Mas é fácil pensar em quanto espaço há lá fora quando nos damos conta disso:

Arrepiante, não? As incontáveis possibilidades a respeito da vida extraterrestre chamam a atenção da humanidade há tempos e com o advento da exploração espacial no século XX, o assunto ganhou lugar especial em nossa cultura. Seja na “Guerra dos Mundos” de H. G. Wells, quando uma transmissão de rádio de uma adaptação do livro causou pânico no Maranhãoseja nas especulações a respeito do famoso efeito Wow!, nos cinemas com filmes de todo tipo de enredo e licença poética e até com pesquisas científicas que buscam sinais de vida inteligente em outros sistemas solares (Sagan, por exemplo, foi um dos idealizadores do Search for Extra-Terrestrial Intelligence, projeto científico que usa radiotelescópios para buscar sinais de vida inteligente em outras galáxias; foi utilizando esses radiotelescópios que Sagan, juntamente com Frank Drake, enviou a chamada “mensagem de Arecibo”, que até o momento, não foi respondida por nenhuma civilização desde que foi enviada, em 1974), o fato é que o assunto vez ou outra volta à tona e reacende o debate se estamos sozinhos no universo.

Muita gente jura de pé junto que já teve contato com um extraterrestre nos mais diversos graus da escala de Hynek. Dentre eles, muitos narram com riqueza de detalhes abduções e experiências de todo tipo realizadas pelos visitantes intergaláticos em suas vítimas humanas. A chegada do Homem à Lua e as posteriores missões de sondas espaciais as órbitas de outros planetas pareceram potencializar as narrativas de avistamentos e de abduções. No Brasil, uma das mais famosas aconteceu em Casimiro de Abreu, no interior do Rio de Janeiro, em 1980, quando supostos visitantes jupiterianos passariam pelo local, o que provocou o deslocamento e a reunião de dezenas de milhares de pessoas em plena ditadura militar. Houve outros casos de avistamento de ovinis no Pará, em São Paulo e em Brasília.

Os demônios respondem

Mas além de vítimas, existiam também aqueles seres (humanos ou não, já que os ETs poderiam se disfarçar para não chamar a atenção) responsáveis por intermediar o contato de outras civilizações com os mandatários do planeta Terra — algo como “leve-me ao seu líder!”. De acordo com essas pessoas, os extraterrestres gostariam de trazer, entre outras coisas, a paz para o planeta Terra e a cura de doenças graves, como o câncer. E se você quer trazer algum grau de confiabilidade a sua narrativa sobre ser alguém com poderes especiais ou que representa uma civilização mais avançada, nada melhor do que procurar um cientista para provar as suas alegações. E é na obra “O Mundo Assombrado Pelos Demônios” que Sagan conta sobre as inúmeras vezes que foi procurado por carta, telefone e pessoalmente, por gente de todo o planeta alegando a sua proximidade com seres de outros lugares do Universo:

De vez em quando recebo uma carta de alguém que está em “contato” com extraterrestres. Sou convidado a “lhes fazer qualquer pergunta”. E assim, com o passar dos anos, acabei preparando uma pequena lista de questões. Os extraterrestres são muito adiantados, lembrem-se. Por isso faço perguntas como: “Por favor, dê uma prova breve do último teorema de Fermat”. Ou a conjetura de Goldbach. E depois tenho de explicar do que se trata, porque os extraterrestres não devem conhecer esses problemas por esses nomes. Assim, escrevo a equação simples com os expoentes. Nunca recebo resposta. Por outro lado, se pergunto coisas como “Deveríamos ser bons?”, quase sempre obtenho uma resposta. Esses alienígenas sentem-se extremamente felizes em responder qualquer questão vaga, especialmente envolvendo juízos morais convencionais. Mas acerca de qualquer problema específico, em que há uma chance de descobrir se eles realmente sabem algo mais do que a maioria dos humanos, há apenas o silêncio. Podem-se tirar algumas deduções dessa capacidade diferenciada de responder perguntas.

As duas perguntas listadas por Sagan no trecho acima necessitam, evidentemente, de um conhecimento acima do dito “conhecimento médio” que um ser humano (ou ser extraterrestre) eventualmente poderia ter. Ainda assim, para uma civilização que viaja anos-luz para chegar até nós, responder a essas questões não deveria ser algo tão distante de sua realidade. Supõe-se que a linguagem matemática que descreve determinados fenômenos seja universal, pois as leis da Física o são. Mas como vimos, os visitantes — ou seus representantes na Terra — não conseguem responder à essas questões de maneira objetiva.

Então, além das duas questões levantadas por Carl Sagan, quais outras poderiam ser feitas a um visitante extraterrestre? Bem, a minha lista seria essa:

  1. Como você resumiria todo o conhecimento científico obtido por sua civilização até o momento? — baseada em uma afirmação de Feynman, essa pergunta poderia trazer luz a respeito do conhecimento científico dotado pela civilização. Viajar pelo espaço a grandes distâncias exige tecnologias avançadas, que são desenvolvidas a medida que o conhecimento sobre diversos campos da ciência se desenvolve.
  2. Quando e como a sua civilização detectou e caracterizou quarks, glúons e bárions?— essas são três das subpartículas que compõem o átomo e possuem diferentes papeis na formação da matéria. Entretanto, ainda existem muitas questões a respeito da forma como essas partículas interagem com as outras que compõem o “nosso” modelo padrão.
  3. A sua civilização resolveu um de nossos sete problemas do milênio? — Os sete problemas do milênio são problemas científicos que, embora propostos há muitos anos, ainda não possuem solução conhecida por nós. Se uma civilização é avançada o suficiente para construir tecnologias de comunicação e de navegação, provavelmente eles tenham se deparado com os mesmos problemas que a humanidade ainda não conseguiu resolver.
  4. Quais características foram fundamentais para que vocês escolhessem o planeta Terra para o contato? — de certa forma, poderíamos vislumbrar características tecnológicas, sociais, culturais, orgânicas que foram importantes para que os extraterrestres decidissem nos contatar (ou escolher o planeta como moradia).

Mas afinal, para que serve isso tudo?

O apreço de Sagan pela ciência é como a metáfora que dá subtítulo ao “Mundo Assombrado Pelos Demônios”: a ciência vista como uma vela no escuro. O racionalismo e o ceticismo que compõem a ciência são, antes de tudo, uma forma de ver o mundo. Uma forma de cultura. Esses elementos da cultura científica devem ser acessíveis a todos, sem distinção, já que é justamente essa visão mais racionalista que permite compreender e discutir os fenômenos de nosso mundo sem recorrer ao misticismo que nem sempre contribui para a compreensão da Natureza. Um exemplo disso é dado pelo biólogo e divulgador científico Richard Dawkins no livro “A Magia da Realidade” (Companhia das Letras, 272 páginas):

Às vezes podemos identificar com precisão a causa de uma coincidência estranha. Um grande cientista americano chamado Richard Feynman perdeu tragicamente a muher, que morreu de câncer, e o relógio no quarto dela parou bem no momento da morte. Frio na espinha! Mas o doutor Feynman não era considerado um grande cientista à toa. Ele foi averiguar e descobriu a verdadeira explicação. O relógio estava com defeito. Se o inclinassem, ele parava. Quando a sra. Feynman morreu, a enfermeira precisou saber a hora da morte para informar no atestado de óbito. O quarto do hospital estava escuro, por isso ela pegou o relógio e o inclinou na direção da janela para enxergar o mostrador. Foi nesse momento que o relógio parou. Nada de milagre, apenas um mecanismo defeituoso.

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Para saber mais sobre a vida e a obra de Carl Sagan e a importância do pensamento científico:

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