Artigos científicos e a cultura científica em sala de aula

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Pensar na ciência como uma forma de expressão humana pode soar como estranho para muitas pessoas. Mas como qualquer outro mecanismo cultural, a ciência possui seus próprios meios de validação, ritos, crenças e valores que a diferem e a caracterizam [1] de outros tipos de conhecimento [2]. E lidar com o ensino de ciências, de forma geral, é também discutir como esses valores, ritos e validação do conhecimento científico acontece. Ou pelo menos, deveria.

E embora todas as disciplinas do currículo escolar sejam científicas, tanto na acepção da palavra quanto nos seus critérios de validação – que podem ser diferentes entre si –, a discussão cultural da ciência ainda é jogada em segundo plano. Primeiro porque pensar na ciência como algo cultural pode, a primeira medida, trazer um ar de informalidade e de irracionalidade, como se a formação de uma cultura fosse apenas uma questão de sentimentos em comum – como se um cientista não tivesse sentimentos! Segundo, porque temos, em termos de ensino, uma demanda enorme para lidar, um rio cujo curso precisa ser moldado para chegar em dois pontos antagônicos: o vestibular das melhores universidades e a formação pura e simples, de olho em alguma oportunidade no mercado de trabalho.

Então, discutir como se dá a formação de um conhecimento científico não faz parte da prioridade curricular das disciplinas. Embora alguns possam argumentar que exista uma previsão curricular nos documentos oficiais da educação brasileira, na prática, é difícil que ela seja colocada para valer quando a prioridade é a discussão de um currículo imenso e a resolução de situações impossíveis que não estimulam a tomada de decisão, a argumentação ou a relação histórica do desenvolvimento conceitual. Daí, fica difícil para que qualquer um perceba que fazer ciência não é algo que é destinado aos “escolhidos” ou que o desenvolvimento científico venha somente a partir de epifanias pontuais, como o caso da maçã de Newton [3].

Em terceiro lugar, realizar esse tipo de discussão nem sempre tem um ponto de partida óbvio. Além da necessidade de se conhecer elementos de história da ciência e da própria epistemologia científica, não é sempre que é possível encontrar materiais ou fontes que possam ser utilizadas no âmbito da sala de aula, isto é, nem sempre serão encontrados materiais que possam servir especificamente para um determinado conceito ou ideia e que possam apresentar toda a sua construção histórica, social e científica de forma clara, simples, com dancinhas, músicas de fundo e memes [4].

A formação do conhecimento científico leva tempo, é cheia de mudanças, de erros e de aprendizados. Conseguir discutir esse aspecto inerente a atividade científica é um avanço imenso. Mas como fazê-lo, levando em conta todos os problemas que enfrentamos diariamente em sala de aula? A questão não possui resposta simples (e duvide de quem traga soluções milagrosas ou que funcionem sem nenhum embasamento na realidade), mas possui caminhos. Um deles é utilizar os materiais originais que deram origem ao que é estudado em sala de aula. Artigos científicos, livros, textos, imagens: aquilo que verdadeiramente motivou uma mudança nos rumos da ciência pode – e deve – ser apresentado aos alunos. Afinal, nenhum desses materiais surgiu ao acaso, sem uma motivação, questionamento ou contexto.

Imagem de athree23 por Pixabay

Algumas sugestões para o uso de artigos científicos em sala de aula visando o desenvolvimento da cultura científica:

Ilustrar pontos da história e da cultura científica de um determinado conceito

Artigos científicos podem ilustrar o desenvolvimento de determinado campo, área ou conceito da ciência. Um exemplo na área de física: o bóson de Higgs é uma partícula teorizada ainda nos anos 1960 pelo físico inglês Peter Higgs. A sua proposição estava relacionada com a existência do modelo padrão da física, que é um modelo teórico utilizado para descrever as interações entre as forças fundamentais da natureza e suas partículas constituintes. Algumas dessas partículas já eram teorizadas e detectadas desde pelo menos 1930 – algumas com uma contribuição decisiva de pesquisadores brasileiros, como no caso dos chuveiros cósmicos no túnel 9 de julho, em São Paulo [5]. Foi apenas em 2012 que o bóson de Higgs foi observado pela primeira vez. Ou seja: uma característica da natureza foi teorizada e argumentada com bases tão sólidas que a sua adoção se tornou um consenso, mesmo que décadas separem a idealização teórica da observação da partícula. Evidentemente, existem outros casos com situações em que podemos perceber esse mecanismo de desenvolvimento do conhecimento científico.   Artigos científicos como forma de ilustrar o desenvolvimento histórico da ciência.

Apresentar métodos e análise de resultados e como a ciência discute os saberes populares

Há uma crença popular que afirma que as fases da lua interferem decisivamente no nascimento de crianças. De acordo com essa crença, há mais partos em noites de lua cheia do que em qualquer outra fase da lua (a base a crença pode variar, mas algumas reproduções da crença tentam trazer um ar mais científico baseando o seu argumento na influência da lua nas marés). O que talvez possa soar interessante é que existem artigos que apresentam os resultados de análise relacionadas com o número de partos e a fase da Lua [6] e conclui, como esperado, que não há qualquer influência da lua nesse sentido. Aqui, os artigos científicos não precisam ser utilizados, necessariamente, para invalidar uma crença, mas sim, para apresentar a diferença na forma como determinado conhecimento é aceito pela comunidade científica. Além disso, é interessante discutir como a ciência não possui dogmas entre os seus temas de pesquisa.

Artigo científico como experiência pessoal (e humana):

Os próprios docentes, em algum momento de sua formação, devem ter passado pela experiência de elaborar ou submeter um artigo científico para um periódico ou evento científico. Compartilhar os detalhes dessa experiência é uma oportunidade para que os alunos conheçam suas especificidades, dificuldades e aprendizados. Além disso, compartilhar esse tipo de experiência pode aproximar a ciência e o cientista da realidade dos alunos e provocar mudanças na visão sobre a ciência e o cientista.

Artigos científicos para apresentar a diferença entre gêneros textuais e seus públicos

Além de mostrar que mostrar que um texto de um artigo científico tem linguagem e objetivos muito diferentes de textos jornalísticos – que pode parecer óbvio –, apresentar um artigo científico em sala de aula é uma oportunidade de discutir como o conhecimento científico chega até a sociedade: uma das formas de isso acontecer é com o uso de materiais de divulgação científica elaborados por pesquisadores, jornalistas, professores e entusiastas da ciência. Esses materiais também têm diferentes níveis de credibilidade e conversar com os alunos sobre isso é um ponto chave para prepará-los para analisar as fontes e a informação recebida, principalmente em informações científicas [7].

Lembre-se: a formação da cultura científica, de compreensão de seus modos de validação e a própria apropriação dos meios culturais da ciência no cotidiano não é realizada da noite para o dia. Tudo isso leva tempo e requer apontamentos constantes. Mesmo que aparentemente simples – como citar o título ou o contexto de um artigo científico durante as aulas – pode fazer uma diferença imensa para a compreensão da ciência, de seu desenvolvimento e de seu papel na sociedade.

Se desejamos que a ciência seja verdadeiramente respeitada, precisamos que ela seja, antes de tudo, compreendida. E isso passa, certamente, pelo ambiente escolar, por todas as disciplinas e áreas do conhecimento.

[1] Diversos autores discutem a formação cultural da ciência, isto é, a composição do saber científico como caracterização de saberes que qualificam um determinado modo de ser ou de agir de um grupo social. Como sugestão de leitura, ficam as obras: “Ciência em ação: como seguir cientistas e engenheiros”, de Bruno Latour (Editora Unesp, 2ª ed. 2012), “Cultura científica: Desafios”, organizado por Carlos Vogt (EDUSP, 2006) e o clássico “Cultura: um conceito antropológico”, de Roque de Barros Laraia (Editora Zahar, 2017)

[2] É sempre importante destacar que, embora o conhecimento científico tenha suas claras diferenças em relação a outros tipos de conhecimento, isso não significa, necessariamente, que ele seja absoluta e imediatamente superior.

[3] Vide: Os problemas das anedotas científicas

[4] Muito embora os memes possam contribuir com a formação do pensamento científico em sala de aula, como discutido em Memes e o pensamento científico em sala de aula

[5] Vide: Detecção de chuveiros cósmicos no túnel 9 de julho

[6] O artigo em questão, escrito pelo professor (já aposentado) da UFRGS, Fernando Lang da Silveira e publicado em 2001, pode ser acessado pelo link: https://www.if.ufrgs.br/~lang/Textos/Lua_bebes.pdf . Vale conhecer a página do professor Lang, que em maio de 2022 recebeu um prêmio da Sociedade Brasileira de Física em reconhecimento ao seu trabalho no CREF (clique aqui para conhecer e se deliciar )

[7] Discutimos o tema da desinformação científica entre jovens neste texto: Percepção sobre notícias falsas na ciência em sala de aula

Imagem de LUM3N  por Pixabay  

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