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WikiTok no bolso

Não acho que seja um exagero retórico: temos, nos nossos bolsos, o acesso a infinitas formas de conhecimentos já produzidas pela humanidade. A possibilidade de conexão a partir de um dispositivo móvel mudou para sempre a forma como interagimos com outras pessoas, como discutimos ideias e como acessamos informações, sejam elas de nosso interesse ou não.

E uma das coisas mais interessantes — pelo menos, sob o meu ponto de vista, claro — do uso dos smartphones é a noção de como novas tecnologias criam possibilidades que, por sua vez, criarão outras possibilidades. Com a possibilidade de vídeos na internet, com o YouTube e o Vimeo, por exemplo, novas formas de produzi-los e de consumi-los surgiram: dos vídeos de amigos aos conteúdos profissionais, dos conteúdos longos e recheados de detalhes aos vídeos curtos e rolagem infinita (que, no final das contas, sempre dá a impressão de que as coisas são infinitas).

É claro que existem diversas críticas para cada um dos modelos de produção e de divulgação de conteúdos na internet. Eles devem e precisam ser discutidos em sala de aula, inclusive sob a perspectiva do letramento científico [1] que, obviamente, não abrange só aquilo que é ensinado nas disciplinas de ciências da natureza [2]. Não se trata aqui de discutir se os memes devem ou não ser utilizados como recurso de ensino ou se um vídeo no TikTok tem maior potencial para o aprendizado do que uma aula tradicional: trata-se de entender que aquilo que aparece diariamente nos feeds das redes sociais surge por um motivo: fazer com o que usuário permaneça o maior tempo possível em uma plataforma, ao mesmo tempo em que cede os seus dados e boa parte de sua privacidade em nome de conteúdo nem sempre saudável para o cérebro (sim, Instagram e TikTok: estou olhando para vocês neste momento [3]).

Daí que achei interessantíssima a ideia do WikiTok . O projeto surgiu a partir da postagem de Tyler Angent, um desenvolvedor web no X (antigo Twitter): e se colocássemos todas as páginas da Wikipédia em rolagem infinita?

A postagem deu a um projeto em código aberto no GitHub criado por Isaac Gemal. O WikiTok é gratuito e funciona, de acordo com Gemal, sem qualquer influência de algoritmos que filtram os conteúdos de acordo com as preferências do usuário do site — ao contrário do que acontece com as redes sociais e as plataformas de conteúdo como o próprio TikTok, cujo algoritmo é pensado para “reter” o usuário pelo maior tempo possível [4].

O WikiTok funciona muito bem em dispositivos móveis, embora também seja possível utilizá-lo em computadores. E como todo projeto de código aberto, já tem versões levemente modificadas, como essa aqui . É possível alterar o idioma dos artigos que serão apresentados no feed, incluindo a língua portuguesa.

E, torcedores, calma: eu sei que muitas pessoas têm as suas restrições quanto ao uso da Wikipédia. Eu já discuti esse tema aqui e aqui e defendo que a Wikipédia é uma ferramenta poderosíssima para a enculturação científica, seja para a discussão da estrutura dos artigos, seja para criticar as fontes, linguagem e referências que são utilizadas nos textos [5]. Como todas as tecnologias que temos a nossa disposição, é importantíssimo conseguir ser crítico para analisar os seus usos e as consequências destes. No caso da Wikipédia, a criticidade envolve também o conhecimento sobre as ferramentas de moderação da enciclopédia.

O WikiTok é uma forma de apresentar criticamente todas essas questões sobre o uso de redes sociais e da Wikipédia. E é uma maneira de passar algum tempo entrando em contato com o que a humanidade tem de mais precioso: os seus conhecimentos.

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[1] Uma ótima referência sobre esse tema é o livro de Pedro Demo “Educação e alfabetização científica” (Papirus Editora, 2014, 220 páginas).

[2] É importante lembrar que todas as áreas do conhecimento (e aqui, leia-se disciplinas elencadas à BNCC) são disciplinas de campos do conhecimento científico.

[3] Como apresentado no essencial Tecnocracia, as redes sociais estão nos anestesiando para a vida enquanto roubam a nossa atenção e causam danos graves nas mentes de adolescentes: https://manualdousuario.net/podcast/tecnocracia-11 .

[4] Fica a dica de leitura do livro da Cathy O’Neil, “Algoritmos de destruição em massa” (Editora Rua do Sabão, 2021, 261 páginas). Na obra, O’Neil discute como os algoritmos escondem vieses de seleção, perpetuação de preconceitos e desigualdades e o obscuro ganho financeiro das big techs com a coleta de dados. Em todo caso, nunca se esqueça: “se algum produto é gratuito, então, o produto é você”.

[5] Ou, ainda, para a discussão sobre a criação de artigos sobre temas ainda não descritos na Wikipédia.

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F. C. Gonçalves

Flávio “F. C.” Gonçalves é mestre em ciências pela Escola de Engenharia de Lorena (EEL-USP) desde 2019, além de licenciado em Física pela Universidade de Taubaté (Unitau) desde 2010, mesmo ano em que passou a atuar no ensino de Física nos níveis fundamental e médio. Como não sabe desenhar nem tocar nenhum instrumento musical, tampouco possui habilidades para construir qualquer tipo de artesanato, restou-lhe a escrita: “quando não sei o que dizer, escrevo”, diz. Desde criança é entusiasta do conhecimento científico. Da sede de querer conhecer mais sobre o mundo veio a paixão pela Astronomia. E quando menos percebeu, estava escrevendo e falando sobre o conhecimento científico para quem quisesse ler ou ouvir.

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