Bordados astronômicos de Ellen Harding Baker

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Helen Harding Baker | Wikimedia

Em 1876, após sete anos de dedicação, Ellen Harding Baker finalizou uma obra de arte que utilizava como material de aula. Nascida em Ohio, nos Estados Unidos, Ellen lecionava astronomia em uma escola rural de Iowa, onde vivia com seu marido e seus cinco filhos. Em uma época em que o acesso ao ensino superior ainda era muito restrito, coube a Ellen e a outras mulheres obter outros meios para aprender e a celebrar seus conhecimentos.

No mesmo ano em que Ellen Baker nasceu, 1847, a astrônoma Maria Mitchell descobriu o cometa Mitchell [1]. O feito de Mitchell não foi apenas científico: o fato de uma mulher, dentro de todo o contexto da época, ter descoberto um cometa e realizar pesquisas científicas de ponta em uma universidade de prestígio [2] catalisou a arte de bordados com temas astronômicos. Além de passatempo, os bordados eram uma forma das mulheres estadunidenses aprenderem mais sobre o universo.

Em uma época em que sequer tínhamos noção de que outras galáxias existiam (coisa que Hubble conseguiu determinar apenas no século seguinte, como vimos aqui), Plutão não era nem planeta — já que ainda não havia sido encontrado em nosso sistema solar — e a astrofotografia era quase uma utopia, compreender a natureza do universo e os objetos que o constituíam dependia do uso da criação artística para que o universo pudesse ser “visto” por mais pessoas. Pinturas, gravuras e bordados eram utilizados em diversos ambientes para mostrar ao público o que astrônomos conseguiam observar em seus telescópios. Maria Mitchell, em referência aos bordados, escreveu em seu diário que “o olho que direciona uma agulha nas delicadas malhas do bordado, também será capaz de traçar uma estrela com a teia de aranha do micrômetro.”

E aqui entra o bordado de Baker, aquele finalizado em 1876. Quando iniciou a sua confecção, a professora tinha vinte nove anos — a mesma idade que Mitchell quando esta descobriu o cometa que leva o seu nome. Ellen Baker fez uma colcha de pouco mais de seis metros quadrados (2,25 m x 2,69 m) em uma base de lã, mesmo material de seus bordados, com um acabamento que mistura lã e seda. A colcha de Baker apresenta o sistema solar conhecido até então, incluindo luas de Júpiter, Saturno, Urano e Netuno, anéis de Saturno e o cinturão de asteroides e um cometa — possivelmente, o grande cometa de 1882. Baker fez diversas visitas e observações no Observatório de Chicago para garantir a precisão na escala e nos objetos representados.

Ellen Hardin Baker faleceu com trinta e nove anos de idade, em 30 de março de 1886, em Iowa, vítima da tuberculose. Além de transmitir os seus conhecimentos como professora, Ellen deixou sua colcha como um incrível legado artístico e cultural para a humanidade.

Quase um século depois da colcha produzida por Baker, outro bordado fora produzido, agora sob as mãos da astrônoma Cecilia Payne-Gaposchkin — responsável por estudos pioneiros sobre a composição do universo, além de ter sido a primeira mulher a chefiar o departamento de astronomia de Havard. Cecilia elaborou a representação de Cassiopeia A, utilizando fio de agulha para bordar a remanescente de uma supernova [3].

O bordado de Cecilia Payne reproduzindo a supernova CAS-A | Harvard University Archives

A colcha de Baker atualmente se encontra no Instituto Smithsonian, mas não está disponível para visitação pública.

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[1] https://adsabs.harvard.edu//full/seri/MNRAS/0008//0000130.000.html
[2] Maria Mitchell foi uma pioneira na astronomia dos Estados Unidos. Além de ser a primeira astrônoma profissional do país, teve um papel de suma importância no ensino para mulheres naquele país. Para saber mais, vale a leitura do texto: “Pioneering 19th-Century Astronomer Maria Mitchell on Education and Women in Science”, disponível em: https://www.themarginalian.org/2013/08/22/maria-mitchell-education-women-in-science/
[3] Sobre Cassiopeia A (Cas-A), leia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Cassiopeia_A

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