InícioESTANTE DO CCULT.ORG: Os diários de viagem de Albert Einstein na América do Sul, 1925

ESTANTE DO CCULT.ORG: Os diários de viagem de Albert Einstein na América do Sul, 1925

Em 2025, celebramos o centenário da histórica viagem de Albert Einstein pelo continente sul-americano. Einstein é, sem dúvida, um dos cientistas mais conhecidos da humanidade. Sua popularidade transcende gerações e sua imagem é reconhecida em quase todos os cantos do planeta — quase sempre pela icônica fotografia em que mostra a língua, registrada em sua festa de aniversário.

Sua trajetória foi narrada em inúmeras biografias, séries e filmes que destacam, com maior ou menor intensidade, o desenvolvimento de seu trabalho científico, sua relação com o Estado, a fuga do nazismo e os aspectos de sua vida privada. Seus casamentos, relacionamentos extraconjugais e círculos de amizade aproximam a figura genial e revolucionária de Einstein de um ser humano comum, dotado de vícios e virtudes.

Einstein além do mito: a face humana

É justamente essa face humana que ganha evidência no livro “Os diários de viagem de Albert Einstein: América do Sul” (Editora Record, 2024, 288 páginas). A obra, organizada pelo pesquisador Ze’ev Rosenkranz a partir de escritos originais, não apenas contextualiza a jornada do físico, mas discute suas perspectivas sobre cada local visitado, relacionando-as ao contexto histórico da época.

Um dos grandes méritos do livro é não tentar minimizar as duras impressões de Einstein sobre a sociedade que encontrou por aqui. Pelo contrário: Rosenkranz analisa diversos trechos sem reduzir as palavras do cientista a meros equívocos de interpretação, expondo a carga social e cultural que o físico alemão carregava a respeito dos povos do Cone Sul. Em uma de suas passagens mais ácidas, Einstein registra:

Impressão geral: índios envernizados, ceticamente cínicos, sem qualquer amor pela cultura, degenerados pela banha bovina.

Uma leitura incômoda e necessária

O livro contextualiza a viagem desde a partida da Europa, apresentando uma introdução histórica que descreve a cadeia de eventos que trouxe Einstein ao continente. A leitura flui com naturalidade, mesmo ao recorrer a outras fontes históricas para aprofundar as atitudes do cientista diante de seus pares. A discussão sobre como a Europa enxergava o desenvolvimento intelectual sul-americano e a análise crítica do diário valem tanto quanto a leitura da íntegra dos escritos de Einstein — que a obra, aliás, apresenta ao final das considerações.

Apesar da fluidez, esta é uma leitura incômoda. Incômoda, porém necessária: ela joga luz sobre como até intelectuais de grande envergadura podem nutrir visões deturpadas e tendenciosas, intimamente ligadas ao meio social em que convivem.

É irônico e doloroso observar que o cientista judeu — que anos mais tarde sofreria perseguição e tentativas de rebaixamento moral e intelectual por sua origem (vale lembrar que o estado alemão chegou a proibir a discussão da Relatividade Geral por considerá-la “suja”) — utilizava termos como “índios envernizados” ou “macacos de smoking”. Como aponta Rosenkranz, essas são marcas do determinismo geográfico que Einstein trazia consigo, presentes nas projeções que fazia das pessoas que conheceu na Argentina, no Brasil e, com um pouco mais de leveza, no Uruguai.

O impacto na ciência local

Além do olhar antropológico e pessoal, o livro discute como a visita impactou as comunidades científicas locais. O incentivo à criação de novas pesquisas no campo da relatividade forçou uma reflexão profunda sobre a natureza do conhecimento científico e a realidade física da época.

Sob essa perspectiva, a obra analisa como as ideias de Einstein foram retratadas pela imprensa e pela academia em cada país. De forma geral, sua presença estimulou a cobertura científica e gerou uma variedade de publicações que visavam informar um público que, até então, pouco conhecia sobre o trabalho do físico.

A obra de Rosenkranz é, portanto, indispensável para discutir as intersecções entre ciência, cientista e sociedade. É uma oportunidade única de conhecer as múltiplas faces de um gênio que nunca deixou de ser humano — mesmo em seus traços mais deploráveis.


Onde encontrar: O livro “Os diários de viagem de Albert Einstein: América do Sul”, de Ze’ev Rosenkranz, está disponível em versão impressa e digital no site da Editora Record , em livrarias e nos principais marketplaces do Brasil.

Nota de transparência: Esta resenha foi elaborada de maneira independente pelo autor. O livro analisado foi adquirido com recursos próprios, sem qualquer vínculo comercial ou recebimento de cortesia por parte da editora ou distribuidores.

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F. C. Gonçalves

Flávio “F. C.” Gonçalves é mestre em ciências pela Escola de Engenharia de Lorena (EEL-USP) desde 2019, além de licenciado em Física pela Universidade de Taubaté (Unitau) desde 2010, mesmo ano em que passou a atuar no ensino de Física nos níveis fundamental e médio. Como não sabe desenhar nem tocar nenhum instrumento musical, tampouco possui habilidades para construir qualquer tipo de artesanato, restou-lhe a escrita: “quando não sei o que dizer, escrevo”, diz. Desde criança é entusiasta do conhecimento científico. Da sede de querer conhecer mais sobre o mundo veio a paixão pela Astronomia. E quando menos percebeu, estava escrevendo e falando sobre o conhecimento científico para quem quisesse ler ou ouvir.

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