InícioDisputas no reino da integridade científica

Disputas no reino da integridade científica

A integridade científica é um assunto muito sério na comunidade científica. Garantir ao máximo que cada pesquisa científica seja honesta, coerente e fidedigna dentro do contexto de sua produção é o que ajuda a garantir a credibilidade da ciência. Diversos recursos são empregados nisso: desde a revisão por pares antes e depois da publicação de um artigo científico, passando pela abertura de dados e repositórios de pesquisas (a famosa open science) até a retratação de uma publicação são os principais recursos que cientistas de todo o mundo utilizam para evitar que erros e, principalmente, a má ciência se confundam com a ciência de qualidade.

O objetivo aqui é resguardar a credibilidade dentro e fora da ciência. É uma prática que, em tese, tenta minimizar os erros e separar ciência de qualidade questionável ou enviesada daquela ciência de qualidade, feita com a intenção de realmente se aproximar do melhor conhecimento disponível em sua época, que precisa se renovar de tempos em tempos: se antes o plágio, a má conduta científica e o conflito de interesses eram as principais questões relacionadas à integridade da ciência, hoje temos a IA generativa que apresenta questões importantes não apenas sobre o plágio, mas também sobre autoria e, especialmente, as informações apresentadas quando a ferramenta é utilizada — afinal, ferramentas de IA alucinam em diversas ocasiões. Mas também há a questão que envolve a análise humana na defesa da integridade científica. Pessoas usariam a defesa da integridade para atacar ou até censurar pesquisas apenas para defender os seus interesses pessoais ou corporativos?

A polêmica da vez (e, não, estou em uso do efeito Datena aqui) envolve o PubPeer , o Science Guardians e Elizabeth Pik , uma renomada especialista em detecção de fraudes em imagens científicas.

Plataformas e a busca pela integridade científica

O PubPeer é um site criado nos Estados Unidos em outubro de 2012. Mantido pela PubPeer Fundation, a plataforma propõe a revisão pública por pares de qualquer artigo já publicado. O processo é relativamente simples: você acessa o endereço do projeto (https://pubpeer.com ), insere o DOI, nome do autor, arXiv ID, palavra-chave ou o link do artigo e pode consultar ou propor a discussão sobre o seu conteúdo. Os comentários propostos pelos usuários cadastrados (anônimos ou de pesquisadores com ao menos um artigo publicado) são verificados pela equipe e liberados para a avaliação de outros pesquisadores, que também podem propor suas correções. A ideia é criar um espaço contínuo de checagem, verificação e correção do conhecimento científico.

Já o Science Guardians foi fundado em 2024 e também propõe um espaço para a revisão por pares após a publicação de um artigo científico. Mantido a partir de doações, o site (https://scienceguardians.com/ ) apresenta, além do espaço de revisão pós-publicação, materiais de treinamento contra a má-conduta científica. A revisão pode ser enviada de forma muito parecida com o PubPeer: após buscar o artigo em questão, o usuário passa pelo processo de login e escreve a sua revisão. Contudo, ao contrário da revisão no PubPeer, o Science Guardians não permite a publicação totalmente anônima de conteúdos; ao invés disso, todos os usuários que queiram enviar sua revisão passam pelo processo de cadastramento e de checagem de identidade. Ao publicar a sua avaliação, você pode escolher manter a sua identidade anônima, mas a equipe do site saberá que você foi o autor do texto. Essa etapa, segundo o site, serve para diminuir “intimidações anônimas” e “campanhas coordenadas de intimidação contra cientistas”.

De fato, condutas que visam minar a credibilidade de estudos científicos não são novidades na ciência. Descredibilizar um estudo apontando os seus erros metodológicos ou teóricos é uma forma eficiente de fazer um artigo científico cair em descrédito — ainda que temporário. A famosa “Batalha das Correntes”, é um exemplo da busca pela diminuição da credibilidade, mas existem outros exemplos mais atuais e ainda mais críticos: a relação entre o câncer e o consumo de tabaco, na questão dos malefícios dos pesticidas e, mais recentemente, na questão das mudanças climáticas1. Todos os exemplos têm em comum a confusão no público e nas autoridades a respeito das conclusões de estudos científicos que acabavam minando certo ramo da indústria ou contrariando interesses econômicos. E aqui nasce o cerne da disputa em que o Science Guardians acusa o PubPeer — e Elizabeth Bik —de manter uma rede de difamação de artigos.

A denúncia no Substack (e a resposta de Elisabeth Bik)

Se você não sabe, o perfil de Elizabeth Bik no X (antigo Twitter) é um dos mais conhecidos por denunciar fraudes e erros que comprometem a integridade da pesquisa científica. Nos seus fios na rede social, Elizabeth apresenta casos de erros científicos discutidos no PubPeer — algumas vezes, com certa agressividade (ou assertividade, se assim você preferir).

Então, no início de dezembro de 2025, o Science Guardians publicou em seu Substack um denúncia contra uma rede de manipulação do debate sobre a integridade científica comandada por Elisabeth . No longo texto, o grupo apresenta as revisões propostas para 17 artigos científicos no PubPeer. Segundo o texto, “cada um desses artigos continha falhas graves, em vários casos fatais, científicas ou éticas – deficiências estruturais que em um ambiente acadêmico normal justificariam, no mínimo, uma expressão de preocupação e, em muitos casos, uma retração direta .”

No entanto, ainda segundo a denúncia do Science Guardians, todas as revisões passaram por um processo de censura, suprimidas propositalmente pelos editores do PubPeer, expondo o conflito de interesses, vieses e proteções que o site adotaria ao analisar cada revisão pós-publicação.

Cada um dos artigos com problemas de integridade analisados pelo Science Guardians tem suas questões de integridade apresentadas ao longo da denúncia. Entre as acusações, estão os aparentes conflitos de interesse e proteção que Elisabeth Bik recebe em relação aos seus artigos publicados (somente os comentários com apontamentos considerados positivos são publicados pelo PubPeer) ou em relação ao conflito de interesses — segundo o Science Guardians, Elisabeth Bik é diretamente associada com a Harbers Bik LCC, “uma entidade comercial que se beneficia financeiramente da investigação de má conduta científica ” e que atua justamente na investigação da integridade de artigos científicos. Em outras palavras, a denúncia aponta que Elisabeth Bik faria o equivalente ao “churros do Chaves” 2[2], o que pode ser muito preocupante sobre a sua imparcialidade ao discutir os artigos.

Prints e comentários acompanham todo o texto da denúncia. A conclusão do Science Guardians aponta que tais censuras e manipulações pretende coordenar campanhas de difamação que visam manipular a comunidade acadêmica e enganar o público ao gerar ruídos intencionais sobre os artigos científicos ou esconder deliberadamente os problemas de conduta, vieses ou erros fatais que os estudos possuem.

É uma denúncia grave, especialmente com base nas alegações dos cientistas independentes que analisaram os artigos e publicaram suas revisões ora censuradas no PubPeer. A integridade científica é uma instituição fundamental para a ciência, seja para a sua prática, seja para a sua divulgação. Manipular a interpretação de estudos científicos é um ataque contra a própria ciência. Ou como escreveu Kesley Piper neste artigo para a Vox : “a fraude científica mata pessoas”.

Elisabeth Bik se defendeu das denúncias em seu perfil no X. Em uma das entradas, acusou o Science Guardians de “escreverem porcaria gerada por IA sem conteúdo científico real, que não passa pela moderação.

. . . . .

  1. Para conhecer mais detalhes de como a manipulação de informações científicas ou a má conduta de cientistas afetou a credibilidade da ciência em diversos casos de repercussão, leia o livro “O Triunfo da Dúvida”, de David Michaels (Editora Elefante, 2024, 440 páginas). ↩︎
  2. Para você não perder a referência: https://www.youtube.com/watch?v=egcNR5qgpLQ ↩︎

. . . . .


O ccult.org é um projeto de divulgação científica independente sobre temas de cultura científica e ensino de ciências da natureza criado e mantido por F. C. Gonçalves desde fevereiro de 2019. Conheça o projeto.

Você pode contribuir financeiramente com o ccult.org. Por apenas R$ 9,00 por mês (ou R$ 0,30 por dia!), você ajuda o projeto a crescer cada vez mais, recebe brindes especiais e ainda concorre a prêmios exclusivos! Acesse: ccult.org/apoie e saiba mais.

🚀 Quer acompanhar a ciência mais de perto?

Inscreva-se na Cesta Científica e receba diretamente no seu e-mail uma curadoria especial com reflexões sobre cultura científica, ensino e os bastidores do ccult.org. Conteúdo exclusivo para quem quer ir além dos algoritmos.

Junte-se à nossa comunidade de leitores:

Acompanhe o ccult.org no Facebook, Instagram e Mastodon.

F. C. Gonçalves

Flávio “F. C.” Gonçalves é mestre em ciências pela Escola de Engenharia de Lorena (EEL-USP) desde 2019, além de licenciado em Física pela Universidade de Taubaté (Unitau) desde 2010, mesmo ano em que passou a atuar no ensino de Física nos níveis fundamental e médio. Como não sabe desenhar nem tocar nenhum instrumento musical, tampouco possui habilidades para construir qualquer tipo de artesanato, restou-lhe a escrita: “quando não sei o que dizer, escrevo”, diz. Desde criança é entusiasta do conhecimento científico. Da sede de querer conhecer mais sobre o mundo veio a paixão pela Astronomia. E quando menos percebeu, estava escrevendo e falando sobre o conhecimento científico para quem quisesse ler ou ouvir.

Post navigation

Leave a Comment

Deixe um comentário