Quem são os cientistas?

A luz do Sol leva aproximadamente oito minutos e trinta segundos para chegar até a Terra. A luz – que é um dos fenômenos mais “esquisitos” que conhecemos – é composta por fótons, mas também é uma onda eletromagnética: essa condição, conhecida por dualidade onda-partícula, foi proposta pelo físico francês Louis De Broglie (1982 – 1987) em 1924 e causou um imenso furor na comunidade acadêmica. Afinal, como é que algo pode ter, ao mesmo tempo, duas características tão conflitantes entre si? Já imaginou ser palmeirense corintiano ao mesmo tempo? Pois é.

O físico francês Louis De Broglie | Wikipédia

Mas não paramos por aqui: o Sol, a nossa estrela, tem um diâmetro aproximadamente 109 vezes maior do que o nosso planeta. Em termos comparativos, é como se o Sol fosse uma bolinha de uns 17 cm de diâmetro e a Terra tivesse o tamanho de um grão de areia. Nossa estrela é também uma imensa usina nuclear que funde, isto é, junta átomos de hidrogênio e com isso, emite a luz em forma de radiação eletromagnética que demora cerca de oito minutos e trinta segundos para chegar até o nosso planeta. Quando está presente, é capaz de acender ou apagar luzes automaticamente pois, ao refletir em determinados metais, arranca elétrons – as partículas negativas do átomo -, que quando se movimentam em um fluxo mais ou menos ordenado, produzem a corrente elétrica que nos permite carregar nossos equipamentos elétricos, acender as nossas lâmpadas, esquentar a água de nossos chuveiros. A ideia louca de que a luz pode ser uma onda eletromagnética – como o sinal de nosso telefone celular – ou uma partícula – como grãos de areia ou bolinhas de gude – agora não só é possível como é aplicável em inúmeras situações de nosso cotidiano.

Essa é uma mínima amostra dos conhecimentos que possuímos a respeito de alguns fenômenos de nosso mundo. A composição e a formação da luz, tamanho do Sol, os efeitos da luz solar em nosso organismo e nas condições para a manutenção da vida na Terra, entre tantos outros conhecimentos, só nos foi possível graças ao trabalho de pessoas que buscaram compreender e explicá-los ao longo da história. Sim, cientista: estamos falando de você.

Onde nascem os cientistas

Em primeiro lugar, é importante distinguir a forma do conteúdo. Cientista, na concepção comum, é aquele que trabalha realizando pesquisas científicas em diversas áreas do conhecimento, ou seja, a profissão de um ou de uma cientista é conduzir ou coordenar uma pesquisa científica para se obter novos conhecimentos sobre um assunto – e aqui nasce uma sutil diferença prática entre ser cientista e pesquisador: o primeiro busca aprofundar os conhecimentos dentro de um determinado campo teórico, enquanto o segundo tem como objetivo pesquisar a respeito de um determinado conhecimento. Obviamente, existem critérios éticos, filosóficos e conceituais para se definir o que e como se realizará uma pesquisa científica. Mais adiante lidaremos com isso.

Assim, cientista como qualquer profissional, é remunerado por seu trabalho. O salário pode vir de seu emprego em institutos de pesquisa bancados por governos ou por empresas. Mas não se engane: receber verbas de custeio de pesquisa não significa ganhar rios de dinheiro, tampouco ganhar algum dinheiro sem fazer muito esforço. Verbas de custeio de pesquisa – a.k.a. bolsas de pesquisa – tem prazo específico para serem pagas, algo que não acontece com um assalariado contratado por tempo indeterminado, por exemplo. Além disso, as verbas de custeio são descritas nos mínimos detalhes e quase nunca incluem uma remuneração extra para um cientista – no máximo, os custos com transporte, alimentação e hospedagens são admitidos aqui.

Só que ser um cientista profissional (e ainda com suas bolsas de estudo e de pesquisa) necessita de um bocado de dedicação e de tempo. Dedicação por necessitar de anos de estudo em uma determinada área para conseguir compreender as possíveis incorreções ou lacunas no conhecimento para então traçar suas estratégias para desenvolver as suas estratégias para resolver ou corrigir aquilo que o conhecimento científico atual até então não conseguia. Uma das características que o conhecimento científico possui, aliás, é de sempre ser provisório: não importa há quanto tempo uma teoria é aceita, ela sempre pode ser testada sob diversas condições para que se verifique até que ponto ele pode ser considerado verdadeiro. E tempo por que o conhecimento não floresce da noite para o dia. É preciso tempo para analisar e compreender o resultado de uma pesquisa e como ela interfere no conhecimento que existia anteriormente.

A formação inicial de um cientista começa no ensino básico. Não, o ensino médio não serve para alguém passar no vestibular: seu papel principal, em tese, é o de formar pessoas capazes de entender racionalmente o mundo a sua volta, sendo aptas a aprender e continuar a aprender mesmo após o fim do ensino médio. São essas duas características que serão exploradas posteriormente no ensino superior na formação de um cientista.

Então, quando você entra no ensino superior, em tese, recebe formação geral na área em que é de seu interesse e pode aprofundá-la em pesquisas de iniciação científica e, principalmente, em seu trabalho de conclusão. Muita gente acha que o trabalho de conclusão serve apenas para enlouquecer estudantes em final de curso, mas o seu objetivo é muito diferente. Este trabalho serve para que você demonstre ter domínio não apenas sobre os conhecimentos de uma ou mais áreas de seu curso, mas principalmente para que você mostre se domina alguns elementos básicos esperados para alguém que seja um cientista: a capacidade de formular questões e desenvolver métodos para responder a essas questões de forma racional, sem achismos ou informações tiradas do nada.

Depois da formação superior, você tem a possibilidade de fazer um curso de mestrado ou de doutorado. É durante essa formação que grande parte das pesquisas científicas se desenvolvem por alunos e por professores universitários que coordenam seus projetos de pesquisa e orientam os alunos durante essa formação. Felizmente, em muitos casos, essas pesquisas não ocorrem apenas na pós-graduação: alunos de ensino médio e de graduação tem conseguido desenvolver novos conhecimentos científicos, embora em áreas aplicadas relacionadas com o desenvolvimento tecnológico.

O cientista, afinal

É após o término do doutorado que uma pessoa pode ser considerada com a formação necessária para trabalhar como cientista. Trabalhar, neste caso, tem mais a ver com ser remunerado pelo seu trabalho do que se comportar como um cientista. Todos nós temos muito em comum com os cientistas, mas poucas vezes nos damos conta disso. A busca por respostas é a razão essencial para o trabalho de um cientista.

Todo conhecimento científico nasce de uma pergunta

Ser cientista não é algo reservado aos que foram agraciados por uma profunda inteligência e ao mesmo tempo vivem isolados e vivem fazendo experimentos em tubos de ensaio. Mesmo não tendo uma formação que possa ser considerada para o exercício profissional, fazer ciência é algo ao alcance das pessoas – e aqui temos a distinção entre forma e conteúdo: tornar-se cientista necessita de anos de estudos; fazer ciência, como atualmente aceitamos, passa por uma série de etapas que não precisam ser necessariamente sequenciais: ter curiosidade por determinado assunto, fazer uma ou mais perguntas sobre aquilo que mais te chamou a atenção e verificar se as possíveis respostas que propõe como solução para a pergunta que você quer responder não precisa, necessariamente, estar vinculado a um título ou posição profissional: todos podem lidar com assuntos de uma maneira científica.

É a partir desta curiosidade, desta vontade de compreender os motivos e consequências daquilo que nos atrai é que surge o conhecimento científico. Não é pelo utilitarismo, isto é, não se busca conhecimento apenas para que ele seja aplicado em algo. Buscamos conhecimento para responder a questão fundamental que nos diferencia dos outros seres vivos: por quê?

Cientistas e seus conhecimentos de arromba

Um dos livros mais legais que já li na vida chama-se “Cientistas e seus experimentos de arromba”, escrito por Mike Goldsmith (Companhia das Letras, 2007 191 p.). Cientistas (e também pesquisadores) são conhecidos por suas descobertas que mudaram a forma como nós percebemos e interagimos com o mundo. Mas pouco é dito a respeito sobre como esses conhecimentos foram desenvolvidos pelas mentes que consideramos geniais.

Charles Darwin se intrigou com o fato de diferentes espécies de animais, como aves e répteis observadas por ele durante a sua viagem ao redor do mundo pareciam ter um mesmo ancestral em comum, ainda que as espécies tivessem características específicas adaptadas ao seu habitat. Com isso, a concepção de que todas as espécies foram geradas por um ser divino sofreu um forte abalo com as novas ideias sobre a evolução das espécies trazidas pela teoria de Darwin. Cientificamente falando, Darwin trouxe argumentos plausíveis e baseados em evidências que podem até hoje serem comparadas e analisadas de forma independente por diversos cientistas. Ainda que as ideias de Darwin sofressem ataques baseados em crenças religiosas ou até na defesa que a Terra não tinha idade suficiente para que a evolução das espécies fosse perceptível – para muitos, incluindo o físico inglês William Thompson (ou Lorde Kelvin, para os íntimos), o nosso planeta tinha menos de 5000 anos de existência. E esse fato foi aceito como uma verdade científica incontestável por uma grande influência que Thompson tinha entre os cientistas; isso é conhecido como “argumento da autoridade” e bem, é como uma carteirada científica quando alguém questiona algo dito ou defendido por uma pessoa que tenha prestígio acadêmico.

Evidentemente, Kelvin estava errado sobre a idade do planeta. Os indícios coletados em fósseis e na análise da atividade estrelar mostrou que a Terra tinha muito mais do que os milhares de anos que ele defendia: estima-se que a Terra tenha algo em torno de 4,5 bilhões de anos! Por fim, Darwin tinha mesmo razão a respeito da evolução das espécies, e o planeta existiu tempo suficiente para que ela ocorresse.

Painel comemorativo da passagem de Charles Darwin no Uruguai | Arquivo pessoal

Einstein, tido com um dos maiores gênios do século XX, se perguntava como seria a nossa aparência se estivéssemos nos movimentando a velocidade da luz. Uma pergunta aparentemente sem qualquer contexto nos permitiu compreender uma infinidade de fenômenos relacionados com a velocidade da luz – ou teoria da relatividade, com a observação do desvio da luz de uma estrela durante um eclipse total do Sol ou com a observação de um buraco-negro ou a detecção das ondas gravitacionais.

O que talvez tenha tornado Einstein e Darwin tão famosos não tenha sido apenas suas ideias revolucionárias em seus campos de estudo. Mais do que as ideias, foram as perguntas que os levaram a conceber suas teorias e a forma como elas se propagaram entre outros cientistas. Ao se tornar um consenso cada vez maior entre os cientistas, as teorias tem uma chance maior de serem estudadas em profundidade e substituírem teorias antigas que se mostraram incorretas ou incompletas em algum aspecto.

No fim das contas, Darwin, Einstein, Newton e tantos outros cientistas construíram as escadas com a sua curiosidade sobre o mundo para então subirem nos ombros dos gigantes até que ficassem grandes o suficiente para serem eles os próximos ombros a serem escalados.

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