Pela relevância do conhecimento científico (ou tome sozinho a sua água sem tratamento)

No começo do século XX, alguns artistas franceses foram convidados a produzir pinturas que retratassem como seria a França nos anos 2000. As obras, em sua maioria, retratam um cotidiano repleto de máquinas automatizadas que auxiliariam os habitantes do século XXI a se vestirem, trabalharem e resolver diversos problemas do cotidiano: de incêndios, com bombeiros voadores a máquinas que transfeririam o conhecimento para estudantes.

O imaginário popular da época — e que assim permaneceu por muitos anos — sugeriria que nos anos 2000, o Homem teria não só chegado a Lua, como passaria férias em Marte, se locomoveria em carros voadores e trataria a sua saúde, quando necessário, da mesma forma que se alimentaria: com pílulas ou pastas desidratadas. A ciência era vista como a salvadora de todos os males da humanidade e com um ou dois anos de pesquisa em laboratórios, tudo seria resolvido.

Agora estamos em pleno 2018 e embora algumas “previsões” tecnológicas do começo do século tenham de fato se concretizado, ainda temos muito para fazer antes de poder nos deslocar em carros voadores ou passar uns dias de férias em Marte (seria um período bem longo e de fortes emoções: mais de 500 dias de viagem para ir ou voltar, sujeito a todo tipo de tempestade e de variação de clima e com condições geofísicas locais muito diferentes da Terra). Mas é justamente o inverso deste pensamento de desenvolvimento científico e tecnológico que tem ocupado o nosso imaginário atual.

Muitos de nossos antepassados jamais esperariam encontrar isso em nosso tempo: pessoas que deliberadamente negam o conhecimento, o desenvolvimento e as descobertas científicas. Terraplanistas, negacionistas das mudanças climáticas, antivaxxers e mais recentemente, pessoas que consomem água bruta, sem qualquer tipo de tratamento ou de filtragem. É isso mesmo: há gente que acredita que é mais saudável consumir água em seu estado bruto e claro que tem gente ganhando um bom dinheiro com isso. Cada garrafa com a tal “água natural” custa US$ 6,50 e a fabricante jura que a água por eles engarrafada “é tão naturalmente pura que excede todas as diretrizes federais e estaduais para beber água diretamente do solo” e que “nossa água borbulha por vontade própria através de abóbadas revestidas de pedras preciosas em uma das regiões mais antigas de uma das mais antigas cadeias de montanhas da América do Norte”. Pois é.

Historicamente, sempre convivemos com doenças como a cólera, a hepatite, teníase e esquistossomose. São doenças que são causadas pela falta de tratamento adequado da água. No Brasil , 35 milhões de pessoas simplesmente não tem acesso a nenhum tipo de tratamento para água que consomem — isso sem contar os 100 milhões que não tem acesso ao tratamento de esgoto. São números alarmantes que derivam de políticas públicas inadequadas, desde o investimento real em saneamento básico até na educação da população a despeito do conhecimento cientifico relacionado ao tema que descamba na falta de interesse sobre o assunto. Quantas vezes você já leu os relatórios anuais de qualidade da água enviados para a sua casa todos os anos pelas empresas de saneamento de sua cidade/região? Você entende o significado dos números das características físicas e químicas da água que compra no supermercado?

Vender água sem tratamento (mas com apelo a concepções científicas, como “estamos dentro das diretrizes federais” ou a relativo misticismo em relação aos cristais e antiguidade), acreditar que o planeta é plano ou que não estejam ocorrendo mudanças climáticas ou defender que vacinar a população é desregular o sistema imunológico, é antinatural e pode até causar o autismo tem um ponto em comum: a negação da relevância do conhecimento científico.

Vivemos em um mundo cada dia mais dependente de aplicações do conhecimento científico e tecnológico. A relatividade de Einstein é aplicada no funcionamento do GPS, enquanto o nosso conhecimento a respeito das ondas eletromagnéticas auxiliou no desenvolvimento de equipamentos como o forno de micro-ondas, satélites, rádios… É o conhecimento sobre o funcionamento das células que permite o desenvolvimento de medicamentos cada mais mais eficientes e com efeitos colaterais cada vez menos intensos. Com os conhecimentos da Química, da Física, da Biologia, Matemática desenvolvemos toda sorte de tecnologias que fazem ou farão parte de nosso cotidiano. Ainda assim, o conhecimento científico é atacado em diversas frentes: do corte de verbas para o financiamento das pesquisas até o ataque aos projetos de pesquisa — vide os argumentos de inutilidade das pesquisas que envolvem a exploração espacial — , passando pela audiência massiva alcançada pelas pseudociências e as soluções milagrosas de problemas complexos, como o câncer e a depressão.

Mas o conhecimento científico e até mesmo a prática, a forma como a ciência é realizada não faz parte da cultura geral da população. As pessoas podem se impressionar com a descoberta das ondas gravitacionais, mas pouco se importarão em discutir as possibilidades e as consequências deste tipo de descoberta. Da mesma forma, discussões científicas do campo da Biologia, como a edição do DNA utilizando a técnica Crispr impressionam, mas quase nunca provocam o anseio popular para o aumento de pesquisas sobre o tema — quando muito, têm-se discussões éticas, morais e religiosas nem sempre baseadas em suas reais aplicabilidades.

Isso tem, a meu ver, uma razão primordial: a concepção de que o conhecimento científico é algo reservado apenas a poucos escolhidos e que quando esse conhecimento é popularizado ou tem grande alcance (como o caso das vacinas), sempre é por conta de alguns interesses imorais de grupos específicos. De fato, a dita “ciência dura”, aquela praticada e divulgada entre cientistas, tem sido acessível somente ao seu público — cientistas e pesquisadores — , embora esse cenário venha se modificando com as iniciativas de divulgação científica e de popularização da ciência em museus, revistas de divulgação, canais no YouTube e blogs ou páginas dedicadas a ciência. Mas essa iniciativas atingem um público segmentado, que se interessa e vai atrás de informações sobre os temas que mais lhe chamam a atenção.

Por outro lado, inciativas de divulgação de pseudociências e de suas concepções atraem cada vez mais ouvintes por trazerem conforto ou prometerem resolver problemas que cientistas ainda não foram capazes de lidar como esse público espera. Tá ruim aqui, na real? Aprecie a sua realidade com o esoterismo quântico e o poder dos pensamentos na atração daquilo que se deseja. Adoeceu? Não tome um medicamento que passou anos sendo testado: recorra a homeopatia. Ouviu dizer que seu organismo produz toxicinas? Sem problema: compre aquele composto detox e sinta-se bem consigo mesmo(a). Se o conhecimento científico é utilizado para criar alimentos industrializados recheados de conservantes, a solução não é desenvolver uma alternativa saudável: basta cortar o problema pela raiz, consumindo água sem nenhum tratamento. Ou se o mundo já se livrou das epidemias de varíola, não preciso vacinar meus filhos, ainda mais quando um estudo — fraudulento e já refutado — dizia que a vacina tríplice viral causava autismo (por aqui, em terras brasileiras, diversas reportagens sensacionalistas ligavam a vacinação de adolescentes contra o HPV a casos de coma, cuja correlação nunca foi comprovada).

Não é que a ciência, enquanto prática, seja infalível ou não possa estar sujeita a interesses escusos. A ciência também erra. Entretanto, ela é a maneira mais confiável que a humanidade possui para conhecer e descrever o universo que nos cerca, já que permite a verificação e a refutação de informações, argumentos e hipóteses por qualquer um que tenha acesso a ciência. Não que este tipo de conhecimento seja melhor do que outros: a questão é que o conhecimento oriundo da prática científica promove resultados que efetivamente trazem alguma contribuição para a humanidade.

Aliás, uma das maiores contribuições que a ciência pode trazer para o nosso tempo é a prática do ceticismo. Ver com desconfiança uma água que é vendida sem nenhum tipo de tratamento é bem melhor do que acreditar no que alguém diz sobre ela. E essa é uma contribuição irrefutável do conhecimento científico.

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