O mau sinal do inglês como o idioma dominante na ciência latino-americana

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Há algumas semanas, o Clarivate Institute for Scientific Information  — ISI, na siga em inglês — publicou o Global Research Report América Latina: América do Sul e Central, México e  Caribe, um extenso relatório acerca das características da pesquisa científica realizada em nossa região.  

O estudo levou em conta dados acadêmicos disponíveis no Web of Science e na Scientific Eletronic Library – SciELO, para os íntimos – para apontar o perfil das pesquisas, chegando a algumas conclusões interessantes (relembre mais detalhes sobre essas duas plataformas aqui). A primeira delas, que já foi antecipada pelo título deste texto, é o fato de o número de publicações originárias da América Latina publicadas em inglês ter dado um salto enorme, ao mesmo tempo em que publicações das línguas oficiais da região — o espanhol e o português — terem diminuído (volto com mais dados sobre isso a seguir).  

A segunda é o crescimento de publicações científicas da região: de 5655 artigos indexados em 1981 para 156000 artigos em 2020. É um considerável aumento da produção científica na região, que foi impulsionada por motivos que se relacionam com a “substituição” da língua pátria pela língua inglesa nas publicações. Outro dado interessante é o acesso aberto na ciência latino-americana: nossa região tem um dos maiores índices de acesso aberto (ou open acess, como queiram) do mundo.  

E por fim, o fator de impacto de publicações argentinas, brasileiras e mexicanas tem aumentado significativamente na última década — e isso também tem a ver com a adoção do inglês na produção dos artigos científicos latino-americanos, como veremos a seguir. 

O aumento da produção acadêmica na região tem diversos fatores contribuintes. O aumento do acesso ao ensino superior e, especialmente, aos cursos de pós-graduação desde os anos 1980, certamente tem a sua parcela nesta situação. Em termos brasileiros, houve um aumento de 44% de alunos nas universidades em 1998 em comparação com 1980; em termos atuais, a proporção de brasileiros com curso superior é de pouco mais de 34%. Historicamente, há a pressão por publicações acadêmicas em toda a trajetória acadêmica dos estudantes, fator que, evidentemente, contribui para que esse aumento de produção tivesse ocorrido. 

Some-se a isso o contexto de aumento de verbas de pesquisa, permitindo que mais pessoas publiquem e o façam em periódicos de maior alcance, que gera maior impacto (ou seja, mais citações) e aumentando a relevância de suas pesquisas. A relevância, neste caso, não seria limitada pela língua utilizada pelos autores em seus artigos: a língua portuguesa (ou a língua espanhola) não seria uma barreira para o debate de ideias ou troca de informações.  

Mas como nem tudo que é ruim dura para sempre nem coisa boa que nunca termine, as crises políticas e econômicas que o subcontinente latino-americano sofreu – principalmente após a primeira década dos anos 2000 – cobraram o seu preço. E, neste caso, o preço foi caro: a diminuição nas verbas públicas para a pesquisa científica e, por conta disso, a tão conhecida fuga de cérebros para outras regiões do planeta, fazendo com que pesquisadores de diversas nacionalidades se juntem em grupos de pesquisa internacionais. Por si só, ter um grupo de pesquisa internacional – e interdisciplinar, como não? – não é um problema. A questão é que os trabalhos produzidos serão publicados na língua mais internacionalizada possível, que, adivinhe…  O inglês.  

E aqui dá pra apontar dois motivos para a escolha do inglês como idioma. O primeiro é a uniformidade da comunicação. Ter uma espécie de “língua-padrão” para a comunicação aumenta o alcance das pesquisas, já que elas reverberam mais rápido entre os cientistas. E a segunda, consequência da primeira, é a necessidade pelo ineditismo ou, em menor medida, o pioneirismo nas pesquisas. Quanto mais promissores os resultados, melhores serão as verbas, mais notoriedade o seu grupo conquista e as (escassas) verbas de pesquisa ganham um fôlego um pouco maior. 

Os pesquisadores que por aqui ficaram, tem basicamente dois caminhos: também publicar em inglês e tentar produzir ciência de ponta como a de outros países do mundo ou publicar em suas línguas de origem e correr o grande risco de seus trabalhos nunca serem citados pela comunidade acadêmica. 

E os dados que o relatório do ISI apresenta indicam como essa mudança na composição dos grupos de pesquisa e, claro, de residência de pesquisadores latino-americanos pode ser decisiva para as características das publicações da região. Os artigos produzidos em língua portuguesa, que correspondiam a quase 30% da base indexada na Web of Science em 2009, caiu para perto de 15% em 2019. Até mesmo na SciELO, em que predominavam artigos em língua portuguesa e espanhola, a queda foi sentida – e foi impressionante: de uma participação de pouco mais de 70% de toda a base SciELO, os artigos em português caíram para metade em dez anos. E embora a proporção de artigos em língua espanhola produzidos por países como Argentina, Colômbia e México tenha se mantido praticamente a mesma, ela foi superada pelos artigos em inglês produzidos por pesquisadores latino-americanos em 2020. De acordo com o relatório, a proporção é de 20 mil artigos em inglês ante 17 mil em espanhol e pouco mais de 9 mil em português. 

E por que tudo isso seria um mau sinal? O relatório do ISI aponta algumas respostas. A principal delas: a colaboração entre cientistas latino-americanos é muito pequena e claro que a adoção de uma língua “estranha” diminui ainda mais esta integração regional entre os cientistas. Outro fator é o econômico: a colaboração científica acaba ocorrendo com países com maior capacidade de investimento em pesquisas científicas, como Alemanha, China, Estados Unidos e o Reino Unido.  

Mas vou além. A diminuição de artigos na língua pátria dos cidadãos e das cidadãs latino-americanas restringe ainda mais o acesso à informação científica. As produções científicas de alto impacto ficam reduzidas a quem compreende o inglês. Ou, no caso mais comum, a quem pertence aos grupos de pesquisa com recursos suficientes para financiar o acesso a publicações de maior impacto e com maior credibilidade no meio científico. Mesmo com a open acess, certos periódicos ou publicações ficam proibitivas para muitos pesquisadores. E isso não é prejudicial somente para a pesquisa científica, mas para a divulgação e compreensão da ciência dentro e fora dos institutos de pesquisa. E aí, todo mundo sai perdendo. 

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Referências e saiba mais:

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