O céu de Johannes Hevelius

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Você já deve ter lido por aí algumas citações atribuídas a Albert Einstein. Na era que antecedeu as redes sociais, não era raro receber em seu e-mail um colorido arquivo de slides com citações sobre temas políticos, religiosos, científicos ou de autoajuda. Einstein sempre foi figura presente nesses arquivos, não só por suas frases autorais, mas principalmente, por frases que nunca foram pronunciadas ou escritas por ele.

Mas há uma afirmação de Einstein não muito conhecida do público que é repleta de significado e de profundidade. A despeito do trabalho de Galileu Galilei, morto quase duzentos e quarenta anos antes do nascimento do cientista alemão, Einstein dizia:

 “O uso do raciocínio científico por Galileu foi uma das conquistas mais importantes na história do conhecimento humano”.

De fato, Galileu foi um revolucionário em muitos sentidos. Bertrand Russel, filósofo e matemático britânico de grande influência no século XX, afirmava que Galileu era “o maior fundador da ciência moderna”. Esse reconhecimento é justo: Galileu foi um revolucionário em muitos sentidos: desenvolveu a ideia de método científico e de seu uso para a verificação de fenômenos estudados dentro da esfera científica, introduziu a matemática como item de previsão e de argumentação dentro de seu método e divulgava suas conclusões, em detalhes, para quem pudesse ler. Não é um eufemismo: Galileu escrevia seus textos em italiano — ao invés do latim, idioma corrente dentro da ciência na época —, utilizando linguagem simples e descrições detalhadas, o que permitia que qualquer pessoa com um telescópio reproduzisse as suas observações e tirasse suas próprias conclusões (o que contribuiu decisivamente para que as descobertas de Galileu se disseminassem rapidamente, para a ira do Santo Ofício e dos inimigos de Galileu).

A nova forma de fazer ciência trazida por Galileu estava irremediavelmente no contexto da produção científica, especialmente dentro da astronomia. Observações sistemáticas, cálculos, previsões, verificações (e quebras de dogmas aristotélicos) trouxeram um desenvolvimento impressionante em termos do desenvolvimento do conhecimento científico e das tecnologias associadas, como lentes, telescópios, modelos de observação e de catalogação de objetos celestes. Embora hoje essenciais para chegarmos ao conhecimento que hoje possuímos sobre o mundo que nos cerca, muito do que se observava tinha como plano de fundo o levantamento preciso de dados para a astrologia — para a tristeza e lamentação profunda de Johannes Kepler, pai da dinâmica celeste.

Kepler foi responsável por deduzir as leis do movimento planetário — aquelas que você conhece como “leis de Kepler” —, publicando seu trabalho em 1619 intitulado Harmonices Mundi. O céu de Kepler nasceu a partir das observações de outro astrônomo (e astrólogo), Tycho Brahe, que durante anos coletou dados a respeito da trajetória de Marte e de outros planetas do sistema solar. Era um céu harmônico, previsível e que suscitou muitas outras questões que só foram respondidas mais tarde — por exemplo, o motivo de planetas possuírem velocidade orbital ao redor do Sol diferentes em relação a sua posição ao redor do Sol. Kepler trouxe alguma harmonia para o céu. Mas outros céus ainda esperavam para serem observados. E foi o que Johannes Havelius fez.

Havelius nasceu em Gdanzk, na Confederação Prussiana, em 1611. Por influência de seu pai, aos nove anos foi enviado para a Polônia (onde atualmente a região de nascimento do astrônomo está localizada). Foi onde Johannes Havelius — que também é chamado de “João Havelino” na versão em língua portuguesa de seu nome — teve seus primeiros contatos com a matemática e com o latim (que como vimos, era o idioma mais utilizado na ciência). O grande empurrão para que ele participasse efetivamente da ciência foi dado por seu mentor, o matemático, astrônomo e polímata Peter Krüger. Krüger despertou e incentivou Johannes em sua paixão pela astronomia, exortando seu pupilo a não perder a oportunidade de observar e registrar o raro eclipse híbrido de dezembro de 1630. A partir de então, Havelius dedicou a sua vida tentando compreender o cosmos e os objetos que o habitavam. Aproveitando a fecundidade de seu tempo iniciada (e inspirada) por Galileu, ele revolucionou a astronomia, criando mapas cada vez mais precisos da Lua e das estelas fixas.

Sua primeira obsessão observacional por assim dizer foi a Lua. Embora Galileu tivesse realizado observações da superfície de nosso satélite natural (que foram seguidas por outros astrônomos nos anos seguintes), elas não eram precisas o suficiente para que Johannes se sentisse satisfeito. A falta de precisão tinha sua parcela pela limitação tecnológica; então, Havelius resolveu sua insatisfação com os resultados anteriores produzindo algo melhor: aperfeiçoou não apenas o telescópio que tinha a sua disposição como criou um sistema meticuloso para registrar o que via. Após cinco anos de observações, nascia o Selenographia, uma coleção de magníficos mapas lunares feitos à mão pelo cientista.

Uma das fases da Lua registrada por Johannes Havelius no Selenographia.

Os mapas lunares de Havelius logo ganharam o mundo e, claro, admiradores. O escritor e viajante inglês Peter Mundy, conhecido por seu “Itinerarium Mundi”, onde relata aspectos culturais de suas viagens pela Europa, China e Rússia, escreveu sobre o Selenographia:

Da Lua ele fez acima de 30 grandes mapas, gravuras ou pedaços de cobre da maneira de cada dia aumentar e diminuir, decifrando em sua terra e mar, montanhas, vales, ilhas, lagos, etc., fazendo em outro pequeno mundo, dando Nomes a todas as partes, como num mapa do nosso mundo.

A importância dos mapas lunares de Havelius se mostra, ainda, na sua manutenção como principal referência do tema por quase duzentos anos após a sua publicação (leve em conta o rápido avanço da astronomia na época). Incentivado (financeiramente, inclusive), o astrônomo passou a se dedicar a elaboração de seu catálogo de estrelas. Além da tarefa difícil por si só — que exigiria uma dedicação extrema e constante aperfeiçoamento —, ainda havia um importante aspecto cultural a ser levado em conta: o heliocentrismo não era um consenso científico e a ideia de um céu imutável ainda permeava a ciência e a sociedade da época.

Haveilus construiu um grande observatório em sua cidade natal, em 1641. Três anos mais tarde, o astrônomo recebeu um presente idealizado por seu mentor, que falecera vinte anos antes: o quadrante azimutal, instrumento de quase dois metros que acabou sendo aperfeiçoado pelo cientista e que se mostrou fundamental para que Havelius realizasse as observações do céu noturno.

Ilustração de Havelius utilizando o quadrante azimutal para as observações a olho nu que resultaram em seu catálogo estelar.

O catálogo estrelar de Havelius não estaria completo — como pode-se supor que sua vida também não estava — até se casar com Elisabeth Hevelius, filha de comerciantes da mesma região onde Joannes vivia, e trinta e cinco anos mais jovem que o astrônomo, à época com cinquenta e dois anos de idade. Elisabeth trabalhou ativamente ao lado de seu marido na construção do catálogo, inclusive aperfeiçoando o quadrante azimutal para possibilitar o uso pelos dois, ao mesmo tempo.

Havelius e Elizabeth nas observações das estrelas fixas.

E aqui cabe um detalhe: as observações realizadas a olho nu. Havelius escolhera abdicar do telescópio por considerar utilizar apenas os olhos mais prático, à revelia dos olhares tortos de seus colegas. Era como se alguém preferisse escrever um texto utilizando uma máquina de escrever e não um computador. O fato é que as observações de Havelius eram precisas o suficiente para que o fato de ele evitar o uso de telescópios fosse um mero detalhe (e antecipando a ideia de que o conteúdo, em muitos momentos, é mais importante do que a forma).

Cometas representados por Johannes Havelius no Selenographia.

Com quase quarenta anos de dedicação a astronomia, Havelius foi surpreendido, enquanto descansava em um jardim nos arredores de Danzig “sentindo-se oprimido por grandes e inusitados problemas, como se pressagiasse algum desastre”, pela notícia do incêndio de seu observatório. Apesar dos esforços da população, quase todos seus instrumentos de observação e manuscritos se perderam. Aos 68 anos de idade, Havelius não se resignou e decidiu reconstruir seu observatório e voltar a observar as estrelas. Recebeu apoio financeiro do rei francês Luís XIV (a carta é excepcionalmente interessante pela forma como Havelius recorre a religião e reivindica os conhecimentos científicos) e do rei da Polônia, que lhe concedeu um salário vitalício.

Embora Havelius tenha conseguido reerguer seu observatório, ele não conseguiu concluir seu catálogo estelar. Pelo menos não diretamente. Exatamente no dia em que completou 76 anos, Havelius morre na cidade onde observou o céu por décadas. Elisabeth, sua parceira de vida e de estrelas, terminou o catálogo estelar, incluindo mais de 600 novas estrelas que Johannes e Elisabeth observaram, bem como uma dúzia de novas constelações, cujos nomes, conforme dado por Hevelius, os astrônomos ainda usam hoje, como lynx e escudo.

Constelações representadas no Selenographia.

O manuscrito com o catálogo foi dado como herança a Katherine, uma das filhas de Joannes e Elisabeth — Elisabeth morreu aos 46 anos. Em seguida, o catálogo quase foi vendido para um museu russo (ironicamente, o manuscrito do catálogo não fora aceito como um objeto de valor). Anos mais tarde, durante uma guerra na região de Danzig, a casa onde a filha e o genro de Elisabeth e Joannes moravam fora atingida por uma bomba, destruindo boa parte do material coletado durante as observações que ainda restara. Mas o catálogo sobreviveu. Ele ainda passou pelos bombardeios da Segunda Guerra Mundial antes de chegar ao seu repouso final, na Brigham Young University, em 1971.

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