Mãe, tô no SETI! Como é contribuir com a busca por vida inteligente em outros planetas utilizando o meu computador pessoal

Eu tinha 16 anos quando reconheci pela primeira vez uma constelação no céu. Inconfundível, as estrelas da constelação de escorpião brilhavam a minha frente, num céu sem nenhuma nuvem e numa rua sem iluminação pública — infelizmente, certas belezas cobram alguns riscos para serem admiradas.

Só anos mais tarde, já durante a graduação, descobri que as estrelas que marcam essa constelação no céu estão entre 550 e 7500 anos-luz de nós (em quilômetros, teremos um valor entre 473000000000000 km e 7100000000000000 km!). Isso significa que para chegar até antares (a estrela mais brilhante da constelação de escorpião) com a maior velocidade possível (neste caso, a velocidade da luz, que é igual a 300000 km/s), levaríamos 550 anos.

 

A constelação de escorpião. Uma constelação é uma região do céu em que estrelas se agrupam e formam simbolicamente figuras associadas a nossa cultura. | Observatório UFMG

Bilhões e bilhões

Nosso Sol é apenas uma entre 250 bilhões de estrelas existentes em nossa galáxia, a via láctea. Estimativas dão conta que temos um valor próximo a 100 bilhões de galáxias. Se temos bilhões de galáxias e bilhões de estrelas com planetas que as orbitam, bem, não é muito difícil imaginar que possivelmente não sejamos o único planeta capaz de abrigar vida.

Na década de 1960, Frank Drake propôs a expressão matemática que ficou conhecida como “equação de Drake”. Essa equação calcula a probabilidade de se encontrar uma civilização avançada o suficiente para que possamos manter algum contato dentro de nossa galáxia. Não se trata, portanto, de uma estimativa do número de civilizações existente, mas sim, de quantas civilizações podemos manter contato, supondo que elas avançaram o suficiente para ter um sistema tecnológico que possa fazer isso. A equação de Drake é essa:

 

 

As sete variáveis da equação envolvem as estimativas para a formação de estrelas e de sistemas planetários que podem abrigar e permitir o desenvolvimento da vida e da evolução de civilizações que podem se desenvolver o suficiente para que criem sistemas de comunicação e os operem (isto é, por quanto tempo a civilização ainda continua viva).

É muito difícil obter valores exatos para as variáveis, embora possamos ter boas aproximações para R* e fp — taxa de formação de estrelas em nossa galáxia e quantas dessas estrelas possuem planetas em sua órbita, respectivamente.

Então, onde eles estão?

Fermi, um dos físicos mais importantes do século XX deu nome ao paradoxo que pesquisadores do mundo todo tentam resolver: se existem civilizações inteligentes, onde elas estão? Por que ainda não fizeram contato? Estamos sós no Universo?

Responder a essas perguntas não é uma das tarefas mais fáceis do mundo. A expressão “procurar uma agulha num palheiro” tem todo sentido aqui. O gigantesco número de planetas e as distâncias até eles inviabiliza missões com sondas ou naves espaciais tripuladas. A observação com telescópios e a análise espectroscópica são grandes aliados nesse sentido, mas não são eficientes para responder a possíveis contatos feitos por civilizações extraterrestres. É aqui que entra em cena o SETI — Search for Extraterrestrial Intelligence ou em bom português, Busca por Inteligência Extraterrestre), projeto de pesquisa que visa contatar ou responder a contatos de outras civilizações.

O SETI utiliza uma rede de radiotelescópios que captam frequências da ordem de 2,5 MHz. Captar essas ondas seria como ouvir o som de buzina em meio a uma floresta: o som da buzina indica a presença de algum ser humano, já que nenhum animal produz esse som característico; da mesma forma, essa frequência não seria produzida naturalmente, o que pode indicar a existência de alguma civilização que a produziu.

Cúpula do radiotelescópio de Arecibo (Porto Rico), de onde pesquisadores do SETI enviam e coletam dados em busca de vida inteligente | Wikipedia

Os dados coletados pelo radiotelescópio de Arecibo são analisados de modo a tentar encontrar qualquer evidência de comunicação extraterrestre. Embora o projeto tenha servidores dedicados a fazer essas análises, a quantidade de dados é gigantesca. E é aqui que você pode entrar.

SETI @ HOME

Estima-se que exista mais de um bilhão de computadores no mundo, sete bilhões de aparelhos celulares e mais de cinco bilhões de pessoas com acesso a internet. E se fosse possível “emprestar” a capacidade de processamento dos computadores e dos smartphones pessoais para analisar os dados coletados pelo SETI? Essa é a ideia que existe no projeto SETI@HOME: através de um programa que automatiza o recebimento, a análise e o envio dos dados para o SETI, qualquer um pode participar do projeto de busca por vida extraterrestre e ainda de quebra, auxiliar no progresso do conhecimento científico.

Comecei a participar do SETI@HOME há algumas semanas, quando finalmente consegui trocar meu surrado notebook antigo por um mais novo, mas com configurações relativamente modestas:

  • Processador Intel i3– 6006U 2GHz
  • Memória de 4GB
  • HD 1 TB de 5400 rpm
  • Windows 10 Home
  • Placa de vídeo Intel® HD Graphics 620

Mapa dos radiotelescópios do projeto SETI (pontos brancos) e dos servidores que enviam e recebem os dados compilados por meio do BOINC | Berkeley SETI

 

O SETI@HOME utiliza o BOINC, projeto de computação da Universidade de Berkeley que permite que diversos projetos científicos utilizem a capacidade de processamento dos computadores pessoais para realizar a compilação e o tratamento dos dados.

Instalar o programa que gerenciará o SETI@HOME é simples: Basta seguir este link: https://setiathome.berkeley.edu/ e fazer o cadastramento para poder realizar o download do programa, que é utilizado para diversos projetos científicos que usam a computação compartilhada para tratar os dados. No cadastramento, você pode escolher uma equipe para participar. São diversas equipes brasileiras no projeto e durante esta etapa, são exibidas informações sobre cada uma delas.

A instalação não levou mais do que cinco minutos. O programa já vem traduzido em língua portuguesa e configurado para rodar só quando estiver ocioso por mais de três minutos e para suspender o uso do computador quando começar a ser utilizado novamente, mas é possível mudar essas configurações na tela principal do programa.

Tela inicial do BOINC onde são exibidas as informações básicas sobre os projetos e dados enviados | Reprodução

 

O BOINC inicia automaticamente com o Windows. É possível desativar essa configuração sempre que desejar. A única inconveniência disso é ter que abrir manualmente o programa para que ele faça o seu trabalho.

Inicialmente, eu permiti que o programa fosse executado em segundo plano ao mesmo tempo em que o utilizava com as minhas tarefas diárias (leitura e produção de textos, slides, navegação na internet). Nas duas primeiras, não percebi problemas na execução dos programas, embora o tempo de inicialização tivesse aumentado consideravelmente. Agora, utilizar o chrome ao mesmo tempo em que o BOINC estava em execução foi um martírio. As abas demoravam muito para exibir as informações e travavam completamente ao menor sinal de vídeo sendo executado. Por isso, resolvi retornar com configurações originais (uso somente com o computador ocioso) e depois disso, o desempenho geral da máquina melhorou muito.

É possível ter acesso a estatísticas detalhadas dos dados compilados e enviados através da “visão avançada” (ver > visão avançada ou teclas de atalho ctrl + shift + a). O uso de uma ou de outra versão depende do gosto pessoal. Eu escolhi utilizar a versão simplificada como padrão e consultando periodicamente a versão completa para saber a quantidade de dados enviados.

 

 

 

Tela avançada do BOINC onde são exibidas as informações detalhadas sobre os projetos e dados enviados | Reprodução

 

Até o momento, compilei mais de 2000 dados que foram enviados automaticamente para o SETI. É possível comparar a quantidade de dados enviadas por você em relação a média geral e a média da equipe a qual você pertence. Segundo dados do próprio SETI, até o momento quase 5,5 milhões de usuários já enviaram mais de 2 trilhões de resultados. O líder de envios é os Estados Unidos, com mais de 2 milhões de usuários quase 900 bilhões de dados enviados! O Brasil ocupa o 30° lugar, com quase 70 mil participantes e 6 milhões de dados enviados.

 

O SETI ainda não encontrou nenhuma evidência sobre a existência ou não de vida extraterrestre. Existem dados controversos, como o efeito Wow! ocorrido na década de 1980 (que, ao que tudo indica, ter sido gerado por um cometa que, digamos, estava no lugar errado e na hora errada e acabou emitindo radiação justamente quando a antena do radiotelescópio de Arecibo estava varrendo a região onde o cometa estava).

Embora meu papel neste projeto seja apenas o de emprestar parte da capacidade de processamento de minha máquina, tenho gostado da sensação de participar de um projeto científico de grande importância. A ciência moderna depende muito de computadores para diversas atividades. Em um mundo conectado, permitir que qualquer pessoa participe, de alguma forma, da pesquisa científica é inseri-la no mundo da ciência. Além disso, responder se existe vida inteligente em outro planeta é também compreender as nossas origens.

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1 comentário em “Mãe, tô no SETI! Como é contribuir com a busca por vida inteligente em outros planetas utilizando o meu computador pessoal”

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