Lua cheia, crenças e ciência

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Temos um caso de amor interessante com a nossa Lua: dedicamos músicas, escrevemos poesias, representamos o nosso amor e a nossa solidão com o testemunho de uma lua cheia. Nos frustramos ao fotografá-la e registrar apenas um borrão branco [1] e nos encantamos com as histórias relacionadas com a chegada do homem à Lua.

De fato, esse objeto com pouco mais de quatro bilhões de anos de vida inspirou os seres humanos a criar os primeiros sistemas de contagem de tempo e a entender a dinâmica do céu noturno. Povos originários de diversas regiões do planeta desenvolveram calendários com base nas fases da Lua, enquanto outros cultivavam crenças religiosas a respeito do astro. Em comum, esses povos originários detinham a inspiração que caracteriza a nossa espécie: a busca por respostas e a consequente possibilidade de prever o que virá em seguida.

É sempre importante que nós não nos esqueçamos que somos seres inteligentes e que criamos explicações para o mundo que nos cerca. Enquanto essa explicação nos satisfaz, incorreta ou não, ela persiste e tende e permanecer assim até o fim de nossa vida. Não é tanto por teimosia, mas sim, pelo significado que a explicação obtém para a nossa existência. Observe qualquer criança buscando respostas sobre algo que chama a sua atenção ou, ainda, peça a ela que explique, por exemplo, porque o céu é azul e a veja associar a cor do céu com as águas dos oceanos e mares da Terra. Enquanto o significado — a associação entre o azul da água nas ilustrações e a cor do céu — fizer sentido, ela continuará a viver a sua vida satisfeita com essa explicação. Por isso ensinar ciências precisa partir do pressuposto de que ninguém é uma tábua rasa sobre qualquer tema e que é preciso ouvir os alunos sobre como eles enxergam o mundo [2].

O mistério sobre o que existiria na Lua começou a ser respondido com a ajuda de Galileu e as suas primeiras observações com um telescópio no século XVII. O cientista italiano identificou as primeiras crateras que concebem uma forma completamente irregular da superfície lunar. Não encontrou dragões ou outros seres, mas ajudou a iniciar a busca por respostas até então não discutidas: o que, afinal, fazia a Lua se manter orbitando a Terra em seu movimento diário?

A resposta veio no século seguinte com a lei da gravitação universal de Isaac Newton. Newton conseguiu apontar a correção nos trabalhos de Kepler a respeito da órbita dos planetas, especialmente a respeito da velocidade nos pontos de afélio e de periélio: Kepler havia determinado que nos pontos de maior proximidade em relação ao Sol, os planetas tinham uma velocidade orbital maior do que quando estavam afastados. A uma distância menor, a força de atração gravitacional entre os planetas aumenta, o que altera a sua velocidade orbital. Newton foi um divisor de águas no estudo da gravitação e de suas consequências no universo.

De quebra, graças ao trabalho de Newton, compreendemos um fenômeno que até hoje é observado e que interfere em nossas vidas – ainda que você não more em regiões litorâneas. As marés que sobem e descem frequentemente nos litorais do mundo sempre foi um fenômeno interessante de se observar, mas pouco compreendido até que Newton aparecesse com a sua lei da gravitação universal. Graças e ele, sabemos que a massa da Lua exerce uma força gravitacional suficientemente grande para deslocar a massa de água dos oceanos para as suas proximidades [3]. Agora, além de explicar corretamente o fenômeno, poderíamos prevê-lo com maior precisão.

Esquema da Nasa apresenta como as marés ocorrem por conta da influência gravitacional da Lua. | Créditos: Nasa Science Earth’s Moon

E nesse contexto de atração gravitacional e nível das marés, surge uma ligação entre o conhecimento científico e a crença. Não que esse tipo de ligação não possa ocorrer em outras áreas, com outros fenômenos — a própria astronomia teve muitas relações do tipo ao longo de sua história — e como já vimos, a Lua faz parte do imaginário cultural humano, junto com o ideal de tentar explicar o mundo ao nosso redor. Dessa forma, crenças populares ganham reforço, uma espécie de verniz que a reforça, mas não aplaca a sua incorreção em relação a explicação que a ciência tem como consenso [4].

Afinal, se a Lua exerce atração gravitacional sobre a Terra, por que não exerceria sobre nós, sobre as nossas vidas e até sobre os nossos atos? Essa é uma premissa importante que a astrologia possui e, em grande medida, encontra eco em crenças populares que tratam, por exemplo, da influência gravitacional da Lua sobre o número de partos ocorridos em um determinado lugar. A lógica tenta dar sentido a uma premissa equivocada — a influência gravitacional da Lua sobre um corpo humano ser suficientemente grande para iniciar um trabalho de parto da mesma forma que essa força é capaz de alterar no nível das marés nos oceanos ao redor do mundo.

Circunstâncias específicas podem reforçar a sensação de correção da ideia. Por exemplo, uma família ter um número de nascimento de crianças maior em fase de lua cheia do que em lua nova, por exemplo. Ou mulheres que descrevem movimentos do feto mais intensos em épocas de lua cheia do que sob outras fases da Lua. Essa conclusão baseada apenas no que vemos no mundo pode trazer erros lógicos que invalidariam a conclusão, já que essas conclusões estão embasadas no que é chamado de referência anedótica. Épocas de eleições são muito propícias para que referências anedóticas apareçam. Cientistas que levam a sério o seu trabalho tentam evitar esse tipo de referência o tempo todo, em qualquer área.

E Carl Sagan dizia que “não é possível convencer um crente de coisa alguma”, já que as crenças não se baseiam, necessariamente, em racionalidade absoluta (lembre-se que ela pode ter elementos de racionalidade que funcionam apenas para fundamentar alguma explicação). Se não é possível convencer, pelo menos, é possível apresentar outros pontos de vista. Uma das coisas mais bonitas da ciência é a ausência de dogmas inquestionáveis e até crenças podem passar por análises com o critério científico. Não para que elas sejam classificadas e validadas apenas pelo que for ou não “científico”, mas sim, para entendermos até que certo ponto os mecanismos funcionam, como eles operam, os seus limites etc. [5].

Em um artigo publicado há alguns anos no Caderno Brasileiro de Ensino de Física , o professor (agora aposentado) do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul Fernando Lang da Silveira [6] apresentou uma análise a respeito da data dos nascimentos de vestibulandos da instituição e as fases da Lua.

Os dados representados no gráfico não apontam disparidade de nascimentos em relação as diferentes fases da Lua. Retirado de: Silveira, 2003.

Como se vê, não existe qualquer tendência de maior número de nascimentos em lua cheia em comparação com qualquer outra fase da Lua. Como o próprio Lang demonstra, a influência gravitacional da Lua sobre o líquido no corpo das gestantes é muito, muito pequena, pois além de massa do corpo humano ser desprezível em comparação com a massa de corpos celestes, a distância entre a Terra e a Lua é grande o suficiente para anular qualquer efeito de maré sobre o corpo humano. Uma possível aplicação do conhecimento científico sendo discutida com… O próprio conhecimento científico.

Sistemas de crença podem trazer elementos de conhecimento científico que só serão úteis se reforçarem aquilo que é motivo do credo. Mas as crenças não deixarão de ser crenças se elas não forem capazes de se modificar com outras evidências. Então devemos censurar todo e qualquer tipo de crença? Há de se ter cuidado com a ideia de superioridade do conhecimento científico, ao mesmo tempo em que precisamos nos manter alerta quanto ao mau uso das crenças. Crer que as fases da Lua têm influência sobre o parto não é um problema: a questão é refletir como certos conhecimentos resistem e são reforçados mesmo quando a vida real mostra o contrário.

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[1] É possível registrar imagens relativamente nítidas da Lua utilizando a câmera do telefone celular, especialmente se o aparelho possui algum aplicativo de fotografia que permite a mudança no nível de luz e no tempo de exposição da imagem. A astrofotografia é uma atividade das mais legais que alguém pode praticar, acredite!
[2] Teorias pedagógicas contemporâneas levam à sério o conhecimento anterior que as pessoas possuem, independentemente da idade. A pedagogia de Paulo Freire, por exemplo, apresenta a necessidade de a educação transformar saberes espontâneos e saberes epistemológicos. Leia “Pedagogia da Autonomia” para maiores detalhes.
[3] Fatores climáticos podem contribuir para a mudança do nível das marés de uma região, como visto aqui: https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2022/08/15/passagem-de-ciclone-extratropical-causa-mare-negativa-no-litoral-de-sp.htm
[4] Essa é uma prática que foi concebida por Richard Feyman e outros estudiosos como “cargo cult science”. Leia mais sobre isso aqui: https://ccult.org/a-cargo-cult-science-nossa-de-cada-dia/
[5] Aliás, Feynman faz uma palestra muito interessante sobre isso que pode ser conferida no livro “Os melhores textos de Richard P. Feynman”, publicados no Brasil pela editora Blucher.
[6] O trabalho do professor Lang no CREF é uma das práticas de extensão universitária mais interessantes que conheço e pode ser acessado aqui: https://cref.if.ufrgs.br/

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Referências:

LANG, F.S. Marés, fases principais da lua e os bebês. Caderno Brasileiro de Ensino de Física. V. 20, n.1, p. 10-19, 2003.

Imagem destacada por Henrique Boney/Wikipedia

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