CCULT LIVROS #6 – Histórias Periódicas

Compartilhe:

Shares

A tabela periódica, junto dos átomos e dos tubos de ensaio, é um dos símbolos mais conhecidos da ciência. Possivelmente, todos tiveram contato com uma assim que iniciaram a sua jornada escolar, embora seja presumível que nem todos conseguiram compreender a profundidade do significado de uma tabela como essa existir — alguns ainda tiveram a infelicidade de ter que decorar e repetir religiosamente os elementos das linhas e das colunas da tabela, sem nem ao menos poder refletir sobre como cada elemento ali presente mudou o mundo a partir de sua descoberta.

Aliás, criar uma tabela periódica não foi a tarefa mais simples: requereu reconhecer a existência de diferentes elementos, de algumas de suas características e pensar em como isso poderia ser organizado. Coube a Dimitri Mendeleev organizar os elementos em sua tabela periódica e conseguir a façanha de prever até elementos que seriam descobertos posteriormente.

E o Histórias Periódicas: a curiosa vida dos elementos, escrito por Hugh Aldersey-Williams (Record, 2011, 415 páginas, com tradução de Cristina Cavalcanti) consegue transportar o leitor em uma viagem pela história dos elementos, ao mesmo tempo em que reflete sobre a história na descoberta de cada um deles, discute as consequências para a vida dos cientistas responsáveis pelo elemento recém-nascido e para a sociedade como um todo. Histórias Periódicas já seria muito feliz se apenas se detivesse no contexto histórico dos elementos químicos. O melhor é que o livro consegue ir além disso sem que a leitura fique constantemente amarrada. Ênfase no constantemente: em alguns momentos da leitura, especialmente na parte final, senti que a leitura ficava presa não pelo tédio, mas pelo excesso de informações. São informações de cunho histórico, químico, social… São, evidentemente, importantes para o que o texto de propõe. Por isso, não se surpreenda com a demora em terminar de ler uma página.

O autor reúne os elementos químicos em cinco grupos: poder, fogo, artefato, beleza e terra. A partir disso, cada elemento é apresentado dentro de sua relação com o grupo, o seu contexto histórico, o modo como o autor o conheceu ou conseguiu catalogá-lo (Williams tem uma coleção de elementos da tabela periódica em sua residência) e como a descoberta e aplicação do elemento mudou as relações sociais desde então. Cabe destacar que a apresentação não segue uma ordem, como a alfabética, para apresentar os elementos, e sim, a sua relação com o grupo em que está contido. Por isso, a história da descoberta do hélio e do fósforo estão no mesmo grupo (fogo). Como a apresentação dos elementos é feita em tópicos separados e quase independentes uns dos outros dentro das partes do livro, o Histórias Periódicas é uma ótima dica para inserir a leitura nas aulas de ciências, mesmo como forma de introdução conceitual. Ensinar ciência vai muito além de apresentar relações matemáticas e resolver problemas propostos em vestibulares: é discutir relações humanas que buscam novas formas de conhecimento, que por sua vez, tem impactos significativos na vida de todos nós.

Talvez o exemplo mais significativo disso seja apresentado na discussão sobre a platina. Reconhecida como elemento ainda no século XVIII, o metal foi ganhou o status de preciosidade durante as sucessivas crises econômicas nos séculos posteriores a sua descoberta (especialmente no século XX), que obrigara a alta sociedade a adotar uma alternativa ao ouro. Desde então, a platina é reverenciada como algo dado apenas aos escolhidos de uma alta classe social, embora a quantidade de platina disponível no solo seja muito maior do que a de ouro (o livro aponta que esse valor seria dez vezes maior). Aí que a platina origina aquele cartão de crédito platinum que, bem, só é liberado a quem possivelmente tem dinheiro suficiente para não precisar de um cartão de crédito.

Histórias Periódicas merece um lugar de destaque em livros de divulgação científica publicados nos últimos tempos. Mesmo com excesso de informações textuais — que é compreensível dentro dos objetivos do livro —, Williams consegue mostrar o trabalho científico e o seu contexto histórico sem apelar ao sensacionalismo ou a estereótipos como o do cientista maluco. Cientistas são seres humanos que fazem de sua curiosidade o seu meio de existência. Essa curiosidade tenta, em geral, explicar o mundo. Em Histórias Periódicas, conseguimos entender como o mundo é a partir dos elementos da tabela periódica.

O livro Histórias Periódicas: a curiosa vida dos elementos está disponível em formato físico (impresso em papel off-white amarelado) no site da Editora Record e nos principais marketplaces do país.

. . . . .

Que bom que você chegou até aqui! Agora, que tal nos ajudar a levar cada vez mais conteúdos sobre ciência e educação para ainda mais pessoas? Clique nos botões de compartilhamento e envie este conteúdo para outras pessoas! Aproveite e siga os nossos conteúdos em nossas redes sociais. Estamos no Facebook, no Twitter e também no Instagram.  

Compartilhe:

Shares

Mais do ccult.org

Cesta Científica #1

Olá! Esta é a Cesta Científica #1, curadoria de conteúdos sobre cultura científica e ensino de ciências do ccult.org Antes …

Artigos científicos e a cultura científica em sala de aula

Pensar na ciência como uma forma de expressão humana pode soar como estranho para muitas pessoas. Mas como qualquer outro …

Artigos científicos históricos #2

Dando sequência ao primeiro post da série “Artigos científicos históricos”, listamos mais sete artigos científicos que você deveria conhecer. Os …

VAR e a descoberta de outras galáxias

Há mais de quatrocentos anos, Galileu Galilei iniciou uma revolução sobre o aquilo que sabemos sobre o nosso lugar no …

Descolonização de fósseis brasileiros: o caso Ubirajara e algumas notas de cultura científica

Diversos ramos da ciência são constantemente representados em filmes de sucesso de bilheteria — e não necessariamente sucessos de crítica …

Percepção sobre notícias falsas na ciência em sala de aula

Talvez alguém no futuro fique alarmado com o fato de o termo “pós-verdade” ter sido escolhido como a palavra do …

if( function_exists('slbd_display_widgets') ) { echo slbd_display_widgets(); }