CCULT LIVROS #10 – A construção das ciências

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Quando li “O Jogo das Contas de Vidro”, de Hemann Hesse (Editora Record, 2020, 504p.) pela primeira vez — e sim, eu sei que cito o livro de Hesse muitas vezes no ccult.org —, tive o misto de sensações que quase todo mundo tem ao ler o clássico livro do autor alemão. No romance utópico (e em muitos momentos, distópico), José Servo recebe o cargo de magister ludi, o cargo mais alto do o ambiente requintado e acessível apenas aos maiores intelectos do mundo. No decorrer da história, Servo começa a contestar tudo aquilo que vê em relação à Cristália, ao Jogo e a si mesmo, gerando uma onda de autoconhecimento em si e presumivelmente no leitor do livro.

Uma comunidade acadêmica, repleta de intelectuais e que pratica um jogo que é, a priori, inacessível a grande parte dos habitantes da Terra. Servo com razão se revolta com essa exclusividade, sobretudo, com a forma em que ela se dá. O fato de o livro terminar com uma tragédia sobre Servo, anunciada pelo autor logo nas primeiras páginas, faz com que todo o contexto entre a intelectualidade e acesso ao conhecimento aumente aquele questionamento fundamental: “por quê?!”.

Confesso que quando li o Jogo das Contas de Vidro, fiquei revoltado com o final. Apenas depois de muito pensando e xingando o autor em pensamento, pude entender o que de fato ele quis dizer com o final da obra. Leiam Hesse, meus queridos. Podem me agradecer depois.

Certo, mas por que uma introdução com Hermann Hesse para discutir um livro sobre Filosofia da Ciência? Para te apresentar a primeira e fundamental razão pela qual você deveria se apossar do que é a filosofia do conhecimento. Durante muito tempo, as universidades e a própria pesquisa científica se comportaram como os intelectuais de Cristália. O alto grau de conhecimento exigido para participar da competição fazia com que seus participantes não quisessem ter contato com aqueles considerados de intelecto menor (numa escala completamente arbitrária, cujo padrão era definido pelo próprio autor da medida). Mais: as pessoas, assim como nos arredores de Cristália, poderiam seguir as suas vidas sem entender os movimentos do jogo e apenas festejando o seu início e o seu resultado. Esse contexto parece familiar?

Foi justamente este contexto que me fez percorrer os caminhos de pesquisa e de divulgação científica que me levaram ao ccult.org, entre outras coisas. Discutir a formação do conhecimento científico me traz alguma vida em meio ao caos. Permite inclusive que eu tente trazer alguma contribuição ao debate e ao conhecimento das pessoas em relação a algo tão importante quanto o conhecimento científico e as suas práticas. Afinal, a ciência é um empreendimento humano culturalmente rico e de amplas possibilidades tão enraizado em nossas vidas que conhecer a produção do conhecimento científico — especialmente quando alguém se propõe a falar sobre ele — é também conhecer um pouco de nossas próprias vidas.

Várias obras se propõem a discutir a formação do conhecimento científico, dando mais ou menos ênfase ao trabalho científico e a relação entre cientistas e seus pares ou às implicações das relações entre a ciência e a sociedade. Uma das obras introdutórias ao tema — que não deixa de ser completa por isso — é o livro “A construção das ciências: introdução à filosofia e à ética das ciências”, do autor belga Gérard Fourez (Editora Unesp, 2003, 321 p. tradução de Luiz Paulo Rouanet). Fourez é o autor do clássico artigo “Crise no ensino de ciências?” [1], que em 2003, debatia os problemas enfrentados pela educação em ciências da natureza (spoiler: os problemas têm origem social e muito mais complexos do que aquilo o senso comum costuma apontar).

Reprodução Editora Unesp

O “A construção das ciências” está disponível apenas em formato físico, em papel pólen 80 g/m². O papel amarelado um reforço para conseguir acompanhar a leitura do livro, que é extenso, mas não nada cansativo. Pelo contrário: além de uma linguagem simples e com muitas informações e pontos de reflexão que o autor aponta para que o leitor, à sua maneira, participe da discussão, a obra possui resumos ao final dos capítulos para que os principais pontos continuem evidenciados para a continuidade da leitura.

Fourez, aliás, é muito feliz em trazer, logo de início, uma ideia que é importantíssima para se compreender a ciência e o seu papel no mundo: não existe neutralidade. A escolha de um ponto de vista para apresentá-la depende de concepções filosóficas e éticas de quem vai apresentar o tema (e é bom que você saiba que as concepções sobre ciência de um professor interferem decisivamente em seu trabalho, do mesmo modo que essa concepção guia o trabalho dos divulgadores de ciência ou reforça o apoio ou a rejeição do conhecimento científico). Isso é importante porque Fourez tenta — e em muitos casos, consegue —trazer autonomia de pensamento para o leitor, que poderá tratar o tema por si mesmo. É difícil conseguir esse tipo de autonomia em um tema complexo e sensível, mas o livro de Fourez permite ao leitor formar suas ideias e, principalmente, como verificar a correção delas.

Dividido em treze capítulos, o livro pode ser separado em duas partes: na primeira, uma discussão epistemológica sobre a ciência, isto é, sobre as formas de construção e de validação do conhecimento científico entre os pares. O autor não se aprofunda nas discussões propostas pelos principais filósofos da ciência, especialmente aqueles que vivenciaram ativamente as “science wars[2], embora apresente e explique o critério da falseabilidade proposto por Karl Popper e toque em outras formas de concepção do fazer científico propostas por Lakatos, Khun e Feyerabend, entre outros filósofos da ciência. Isso não é necessariamente ruim: o autor apresenta as ideias que embasam as concepções epistemológicas dos autores; contudo, a escolha de Fourez é a de introdução e não de julgamento a respeito das ideias concebidas por eles. Acredito que aqui Fourez poderia ter dado um pouco mais de ênfase nas discussões filosóficas acerca do tema. Mas isso não invalida, claro, o trabalho que ele produziu neste livro.

A segunda parte (não oficial) do livro trata da questão ética nas ciências. Como livro introdutório, esse é um dos poucos a tratar do tema de forma tão clara. Fourez discute aspectos como a ideologia em ciência e as implicações éticas do e sobre o conhecimento científico em relação a si mesmo e com a sociedade. Isso é um aspecto fundamental quando se discute a formação do conhecimento científico: ele não é uma entidade separada da sociedade. Cientistas carregam em si suas visões de mundo, suas ideologias e suas projeções sobre como as coisas deveriam ser (que, claro, nem sempre correspondem a como as coisas são, de fato). E é bom que fique claro, como Fourez exemplifica nos capítulos 4, 7, 9 e 11, que a comunidade científica tem ferramentas para lidar com essa perspectiva e diminuir possíveis erros de conclusão provocados por vieses de análise.

Ainda que se apresente como uma introdução, “A construção das ciências” é um livro muito rico para quem deseja entender como o conhecimento científico se desenvolve e é validado entre os cientistas e apresentado para a sociedade — e como a sociedade pode influenciar na produção dos conhecimentos da ciência.

O livro de Gérard Fourez “A construção das ciências: introdução à filosofia e à ética das ciências” com tradução de Luiz Paulo Rouanet está disponível no site da editora Unesp e nos principais marketplaces da internet.

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[1] GERARD, Fourez. Crise no ensino de ciências? Investigações em Ensino de Ciências. Disponível em: http://www.hu.usp.br/wp-content/uploads/sites/293/2016/05/Gerard_Fourez_CRISE_NO_ENSINO_DE_CIENCIAS.pdf . Tradução de Carmem Cecília de Oliveira.
[2] As “Science wars” foram uma série de disputas (algumas chegando as chamadas “vias de fato”) entre filósofos da ciência que, após a década de 1960, discutiam o papel da ciência e das formas de validação do conhecimento e a sua aproximação com a realidade. Foi, sem dúvida, um momento histórico para a construção do conhecimento científico e você pode saber mais sobre elas aqui: https://en.wikipedia.org/wiki/Science_wars . E o nome, claro, é só mais um exemplo do “efeito Datena”

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