Há espaço para a divulgação científica em sala de aula?

O ensino de ciências no Brasil é debatido sob diversas visões desde pelo menos o fim da década de 1970. De lá para cá, as discussões se aprofundaram em sentido epistemológico, didático e pedagógico, especialmente com a ascensão do movimento CTS – ciência, tecnologia e sociedade, que defendia, entre outros pontos de vista, um ensino de ciências voltado para o desenvolvimento do pensamento crítico e do conhecimento da ação da ciência sobre si mesma e sobre a sociedade.

Essas discussões permeiam o ambiente acadêmico, seja na pesquisa sobre o ensino de ciências, seja na formação – e aqui pode-se criticar a profundidade em que elas ocorrem – de novos educadores e ultrapassam os muros das escolas e universidades quando os resultados do PISA são divulgados e indicam os problemas que o nosso ensino encontra (o que, evidentemente, não deveria ser o único gatilho para esse tipo de discussão). São obstáculos que indicam que o nosso ensino ainda prioriza os conteúdos ao senso crítico, a aprovação no vestibular e o Enem ao ensino para a vida. Afinal, o parâmetro de qualidade que o senso comum ainda tem é o da quantidade de alunos aprovados ao final do ensino médio ou dos cursinhos. Isso tomou uma proporção tão grande que há escolas que adotam estratégias controversas para garantir a veracidade da superioridade de seus cursos. Mas isso é assunto para outro texto.

É evidente que o ensino de ciências está aquém do que gostaríamos. Com a pandemia de covid-19 assombrando a nossa porta, muitos finalmente se deram conta da importância da ciência e de como ela está profundamente associada ao nosso cotidiano. Por outro lado, isso escancarou a defasagem conceitual e epistemológica apresentada como resultado do nosso ensino. Ciência? Método científico? O trabalho de cientistas e dos institutos de pesquisa? Tudo isso oscila entre o irrelevante e o desconhecido.

Temos então, um cenário catastrófico: uma sociedade que não conhece os métodos da ciência e o seu papel no desenvolvimento econômico e social e até para diminuição das desigualdades; que trata os professores e a comunidade escolar como meros informadores; que designa um ambiente escolar gerido apenas para satisfação dos anseios políticos, mas sem um projeto de educação, de formação, de gestão. E esse não é um cenário desconhecido por nenhum educador deste país, ainda que se possa argumentar que nem todos conheçam, de fato, os abismos e as profundidades que envolvem o trabalho docente.

Então, o que fazer diante de tudo isso? Se existem enormes buracos no terreno do ensino e da aprendizagem de ciências, como desviá-los? Como apresentar, por exemplo, o trabalho de um cientista se nem laboratório de ciências a alunos que estudam em uma escola que sequer tem um laboratório de ciências?

Muitas alternativas foram pensadas a tudo isso e eu indico uma acessível a todos: a divulgação científica. Sim, estou falando de textos de revistas de divulgação científica, de vídeos de divulgadores científicos e até da produção de material de divulgação elaborado pelos próprios alunos. E não é uma alternativa tirada ao acaso: ela é prevista na Base Nacional Comum Curricular e estava implícita lá nos Parâmetros Curriculares Nacionais.

Um texto de divulgação científica se difere de um texto de opinião ou até mesmo de uma reportagem por alguns aspectos, de acordo com o Guia de Divulgação Científica (Luísa Massarani et. al., 2004):

  • Linguagem simplificada;
  • Exemplos relacionados com situações do cotidiano;
  • Uso de analogias;
  • Aprofundamentos para conceitos complexos.

É importante ressaltar que esse tipo de material não substitui o papel do professor – principalmente no atual paradigma docente de mediação e de construção do conhecimento. Crianças e adolescentes são curiosos e muitos procuram professores para sanar suas dúvidas quando veem determinado “fato desconhecido”. Infelizmente, professores podem não ter tempo ou conhecimento sobre esse tipo de material que é facilmente encontrado na internet brasileira. Nesse sentido, a produção de materiais de divulgação científica pode ser uma ferramenta interessante. Por que não solicitar aos alunos que investiguem e apresentem os resultados de uma pesquisa sobre uma informação duvidosa? Ao fazê-lo, apresentamos aos alunos algumas importantes características do trabalho científico: a revisão bibliográfica, a coleta e a análise de dados, a determinação de um resultado, a produção de argumentos embasados no que foi verificado durante a pesquisa e a sua apresentação para outros membros. E tudo isso sem a necessidade do uso de um laboratório específico (e evidentemente, o ensino de ciências tem o dever de ser também experimental; o que argumento é que situações fora do ambiente de um laboratório também podem ser propícias para o desenvolvimento desses elementos da cultura científica nos alunos e no próprio professor). Além disso, o professor possui os conhecimentos teóricos mínimos para avaliar a correção conceitual. E se não os possuir, terá um norte a seguir, especialmente por nem sempre as checagens de fato se aterem a discussão conceitual dos conteúdos de determinada informação.

Se não é possível ir a um museu de ciências, existem experiências remotas que podem ser também de grande aprendizado. O projeto “Telescópios na Escola”, por exemplo, permite que alunos de qualquer lugar do Brasil façam observações em tempo real de estrelas, nebulosas e planetas controlando um telescópio remotamente através de conexão com a internet. Bem, muitas escolas não liberam o acesso à rede e isso, infelizmente, é uma verdade. Mas é preciso lutar contra esse atraso que muitas vezes depende apenas da liberação da senha da rede sem fio ou da compra de um roteador mais potente.

Os textos de divulgação científica, por exemplo, podem ser utilizados em qualquer disciplina – afinal, todas as disciplinas escolares são parte do conhecimento científico. A leitura de textos sobre fenômenos naturais ou sobre a discussão teórica a respeito de alguma tecnologia são boas aplicações para esse tipo de material, por exemplo, como introdução para uma aula. Ou para aprofundamento das discussões em sala de aula.

Em resumo, os materiais de divulgação científica:

  • Estão previstos nas normas educacionais brasileiras;
  • Podem ser utilizados como base para uma aula ou aprofundamento do que foi discutido pelo professor;
  • Não substituem o trabalho docente sob qualquer aspecto;
  • Podem auxiliar na formação de elementos da cultura científica, especialmente em atividades investigativas ou de apresentação de argumentos;
  • Apresentam o desenvolvimento científico e seus atores, trazendo a oportunidade de discutir o papel do cientista, seu trabalho e as implicações para o cotidiano.

Fontes de materiais de divulgação científica que você deveria conhecer

Você pode obter materiais de divulgação da ciência nos seguintes locais:

  • Revista Pesquisa Fapesp: editada pela Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo, é uma excelente fonte de informação científica, com textos de jornalistas científicos e de cientistas. Possui material de acesso gratuito e oferece desconto em assinaturas para estudantes e professores.
  • Jornal da Ciência, editada pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), é disponibilizada em meio digital pelo endereço e enviada impressa para associados à entidade.
  • Ciência USP, da Universidade de São Paulo, traz os principais assuntos científicos e textos com entrevistas e pesquisas da universidade.
  • Ciência Hoje, produzida pelo Instituto
  • Hoje, é um dos mais antigos referenciais de divulgação científica do Brasil. Seus textos, escritos por pesquisadores e publicados no site, falam sobre diversos aspectos conceituais de diversas áreas do conhecimento;
  • Nunca Vi Um Cientista, uma das melhores páginas de divulgação científica do Facebook.

Se é um fato que cada vez mais menos estudantes se interessam pelas carreiras ditas científicas, é também um fato que a escola tem um papel importante diante desse cenário. Mas a escola não é o único ator: enquanto a sociedade não mudar a sua percepção sobre a importância do conhecimento científico, pouca coisa mudará. Mas fazer alguma coisa é ainda melhor do que não fazer nada.

. . . . .

Para saber mais:

. . . . 

 

 

Mais do ccult.org

Mapeando as discussões sobre ciência no Twitter

Criada em 2017, a hashtag é um marco na comunicação na internet. A ideia é simples: marcar assuntos ou temas …

Periódicos científicos na palma de sua mão: aplicativos e sites para acessar e gerenciar artigos

Nos últimos anos, o acesso aos periódicos científicos tem sido facilitado pelo crescente acesso à internet e a parceria entre …

Feliz Dia Nacional da Ciência!

Em um dia como hoje, 8 de julho, era fundada a primeira entidade científica brasileira: a Sociedade Brasileira para o …

Divulgação científica contra as notícias falsas sobre o coronavírus

Uma das tarefas mais importantes da divulgação científica é a de informar corretamente os fatos científicos, especialmente quando eles ainda …

ccultcast dois: os artigos científicos

O segundo episódio do ccultcast está no ar! Neste episódio, discutimos a produção e o papel (sem trocadilhos, por favor!) …

A questão do plágio na ciência

Uma das piores infrações éticas que alguém pode cometer em uma pesquisa científica é o plágio. Em resumo, o plágio …

Scroll Up
Deprecated: Directive 'track_errors' is deprecated in Unknown on line 0