A questão do plágio na ciência

Uma das piores infrações éticas que alguém pode cometer em uma pesquisa científica é o plágio. Em resumo, o plágio acontece quando alguém apresenta algum material como sendo seu, quando na verdade, ele é de autoria de outra pessoa. Em outras palavras: o plágio acontece quando um autor assume a autoria intelectual de alguma obra (um texto, um artigo científico, uma imagem) como sendo sua.

Se nos primórdios da ciência moderna, o plágio tinha contornos mais próximos aos de armas entre embates pessoais do que a discussão sobre a apropriação indevida em si. No século XVII, Isaac Newton acusava ferozmente Gottfried Wilhelm Leibniz de ter plagiado o seu desenvolvimento do cálculo diferencial — o que, na verdade, não passou de uma sequência de (infelizes) coincidências entre os dois —, ao passo que Newton também fora acusado (injustamente, é verdade) de ter plagiado os trabalhos sobre óptica de Robert Hooke. No primeiro caso, Newton queria ser considerado o primeiro a elaborar a ferramenta matemática, enquanto no segundo, Hooke queria desmoralizar Newton perante seus pares. Em termos mais recentes, há quem acuse Albert Einstein de plágio no desenvolvimento de suas teorias da relatividade (tanto a restrita, publicada em 1905, quanto a geral, publicada em 1913) ou ainda, o caso da descoberta do DNA por Francis Crick e James Watson, em 1953: Rosalind Franklin havia registrado a primeira imagem da dupla-hélice, mas não a reconheceu como tal; posteriormente, Crick e Watson tiveram conhecimento sobre a imagem registrada por Rosalind Franklin e publicaram com sendo deles a descoberta da estrutura do DNA. E não citaram, em momento algum, a cientista que obteve a imagem.

O desenvolvimento científico passa pelo compartilhamento de ideias e de informações e, principalmente, dos resultados de estudos realizados por cientistas. Cientistas que conseguem avançar em suas pesquisas e compartilham resultados que explicam fenômenos ou apresentam novas situações que podem ser abordadas por outros cientistas acabam ganhando renome dentro da comunidade. Não que eles sejam donos da verdade ou o que o que eles escrevam passe a ter o poder de verdade única: eles apenas ganham renome e o que eles escrevem passam a ter um peso maior, isto é, a comunidade científica tende a ouvi-los mais sobre o que eles tem a dizer sobre suas pesquisas ou um tema dentro de uma área do conhecimento. E uma das formas de a ciência conseguir verificar a veracidade e a conexão com a realidade daquilo que foi proposto ou resultou de alguma pesquisa é recorrer as fontes nas quais o trabalho foi embasado.

É por isso que as pesquisas científicas, sem exceção, tem um campo dedicado as referências, que são justamente os autores nos quais o cientista se embasou ao fazer o seu trabalho.

Então, se você utiliza algum material que não é seu e não dá os devidos créditos, a credibilidade do trabalho científico como um todo fica abalada. Como garantir que o que você obteve como resultados correspondeu a verdade dos fatos? Ou como garantir que foi você mesmo quem fez aquela pesquisa em que você se coloca como autor? E mais: como diminuir as injustiças quanto a autoria de trabalhos científicos se não tivermos um sistema que puna quem tente produzir sobre algo que não é seu? Por isso o combate ao plágio é levado tão à sério pela comunidade científica mundial.

Reprodução: memecreator

Essa é uma questão tão séria que trabalhos inteiros de graduação, dissertações (frutos de uma pesquisa de mestrado) e teses (que são o resultado de uma pesquisa de doutorado) são cancelados e seus autores, perdem o título, isto é, o diploma por conta do plágio. E não precisa ser uma cópia extensa para que o plágio seja constatado: o uso de imagens sem os devidos créditos pode ser motivo suficiente para a cassação do trabalho. E a investigação de plágio pode acontecer a qualquer tempo, mesmo anos depois do trabalho ter sido apresentado e aceito por revistas científicas ou aprovados em bancas de avaliação. Basta uma denúncia para um comitê seja formado para averiguar os fatos, ouvir as testemunhas e dar o veredito, que pode ser a publicação de uma retratação e até a despublicação, isto é, a retirada do trabalho, o seu cancelamento perante a comunidade acadêmica. E a credibilidade do pesquisador fica abalada, dificultando o acesso a recursos de pesquisa, aceite de trabalhos e até a perda do emprego se este estiver vinculado a uma instituição de ensino.

Onde nascem os plagiadores?

Para combater o plágio é necessário combater a sua origem. Por que alguém copiaria o trabalho de alguém? Algumas respostas possíveis:

  1. Cultura de cópia: o autor ou a autora do trabalho simplesmente repete aquilo que foi condicionada por anos a fazer: simplesmente transcrever informações disponíveis em livros ou em páginas da internet; com isso, aprendeu que uma pesquisa — em termos científicos — se resume a copiar um trecho ou a totalidade de um texto, por exemplo.
  2. Pressão por publicação: durante muitos anos, os cientistas foram avaliados por sua produtividade, isto é, pela quantidade de artigos que conseguiam publicar, especialmente se esses artigos eram publicados em periódicos científicos de maior renome entre a comunidade científica. Para aumentar a produtividade, alguns cientistas copiam trechos ou partes completas de trabalhos de seus colegas e não atribuem os devidos créditos.
  3. “Eu queria ter escrito isso”, que pode ocorrer quando um cientista quer registrar o pioneirismo sobre algum tema ou descoberta em alguma área do conhecimento e, para isso, se apropria conscientemente o trabalho de outras pessoas — especialmente de estudantes ou de orientandos que colaboram com as suas pesquisas. É o também acontece na internet, especialmente em redes sociais: alguém tem um tweet muito engraçado ou cria um meme fantástico e pronto: ele é reproduzido por outros perfis como se estes tivessem criado o material. O pior é que em ambos os casos, o plagiador tem ganhos morais e financeiros, enquanto os plagiados é que precisam correr atrás do prejuízo — especialmente no caso dos plagiadores de conteúdo na internet.

Uma das falhas mais gritantes do ensino de ciências é a perpetuação da cultura da cópia. A pesquisa escolar é simplesmente a transcrição de respostas prontas, de textos já escritos. Uma pesquisa da Unicamp apontou que só 13% dos alunos ingressantes na universidade sabiam o que é plágio. Sim, quase 9 entre 10 alunos que ingressaram numa das maiores universidades brasileiras, cujo processo seletivo é um dos mais concorridos do Brasil, não sabia o que era plagiar um trabalho científico.

Ainda em termos de ensino de ciências, ainda temos o ritual de propor pesquisas aos alunos que não propõem a análise e o uso do rigor crítico, especialmente porque uma pesquisa escolar, em geral, não se comporta como um tal: uma pesquisa científica pretende responder uma ou mais perguntas. E quais perguntas alguém responde numa pesquisa sobre um tema definido? É importante que os alunos façam pesquisas que complementem os assuntos estudados, mas qual é a pergunta que você espera que eles respondam? Os alunos são estimulados a verificar a veracidade daquilo que estão utilizando como base de suas pesquisas? Ou ainda: os alunos sabem onde realizar suas pesquisas?

Não é de se estranhar que os trabalhos de conclusão de curso nas graduações sejam vistos como vilões pelos estudantes. Com a ausência de elementos triviais da cultura científica, os alunos simplesmente se veem pressionados por realizar aquilo que deveria ser a razão final da vida acadêmica: a produção de conhecimento e não a sua absorção pura e simples, sem questionamentos, sem a necessidade de pensar criticamente sobre os assuntos, pois foram condicionados a agirem assim perante o conhecimento científico.

Ferramentas anti-plágio

Para combater o plágio, professores e universidades contam com softwares que auxiliam na busca de trechos plagiados ou de imagens que não receberam os devidos créditos em sua autoria.

As universidades costumam recorrer a softwares conhecidos, como o Turnitin ou o CheckForPlagiarism.net, cujas licenças são pagas. Esses softwares varrem a internet em busca de trechos idênticos aos trechos publicados na rede ou em suas bases de dados e apresentam os trechos que tem indícios de plágio. Há ferramentas gratuitas como o Dupli Checker, Plagiarism Detector e o Quetext que fazem um trabalho semelhante e são alternativas aos softwares pagos, embora possam falhar em algumas detecções — principalmente na varredura em livros ou outros documentos que não estão disponíveis na internet.

Além destas a Microsoft implementou recentemente uma ferramenta de detecção de plágio que pode ser utilizada diretamente no Microsoft Word para assinantes do Microsoft 365. Chamada de “verificação de similaridade”, a ferramenta busca em fontes de dados na internet trechos similares ao que estão no texto que está sendo redigido no programa e destaca os trechos com indício de plágio. O Google Chrome tem uma ferramenta parecida disponível na extensão Plagiarism Checker for Chrome.

Mais do que utilizar softwares e banir os plagiadores, o combate ao plágio e a toda cultura relativa a ele se faz no durante a formação dos alunos no ensino de ciências. Não é mais possível aceitar que alunos cheguem ao ensino superior sabendo recitar todas as expressões matemáticas utilizadas em física ou conhecendo todas as constantes químicas, mas não compreendendo a importância de ser autor de seu próprio trabalho. Para combater o plágio, é preciso formar, antes de tudo, seres pensantes. Já pensou nisso?

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Para saber mais:

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