A praga das notícias falsas como sinal de nossa crise no ensino de ciências

Quando a Wikipédia começou a se popularizar no inicio do século, uma estranha sensação que misturava a esperança do conhecimento democratizado com o medo diante do que era novo surgiu em escolas do mundo todo: como conviver com o fenômeno do acesso livre a informação? Ou ainda: como conviver em um novo mundo onde as tecnologias pareciam querer tomar o lugar do professor como dono do saber?

Seja por instinto de autoproteção, seja por desconhecimento ou por puro preconceito, o uso da enciclopédia livre foi rapidamente banido de trabalhos escolares em todos os níveis de ensino. A Wikipédia, diziam, era repleta de informações falsas, imprecisas, incorretas. “Qualquer um pode colocar o que quiser”, era o argumento central daqueles que desaconselhavam com todas as forças o seu uso como ferramenta de ensino ou de amplificação do conhecimento.

E assim, a Wikipédia foi transformada em um ambiente desacreditado por natureza, onde qualquer informação ali aplicada deveria ser checada, pensada, comparada com outras fontes e nunca utilizada como referência final de qualquer assunto pesquisado.

Enquanto isso, príncipes africanos procuravam alguém para deixar a sua fortuna, um turista conseguiu registrar o iminente momento do choque de um dos aviões com o WTC em 11/09, alguém deixava seringas contaminadas com HIV nas poltronas dos cinemas, as tempestades solares atingiram o nosso planeta em breve e destruiriam todas as tecnologias que deixavam o nosso mundo mais confotável. As correntes, que antes se restringiam aos e-mails ou a fóruns, receberam um imenso impulso com o advento das redes sociais e toda sorte de golpes e de falácias chegam até nós todos os dias. Bem, e se é possível fazer com que boatos com informações imprecisas relacionadas, por exemplo, a ciência e a tecnologia, chegassem a milhões de pessoas, imagina o que se poderia fazer se manipulassem as informações relacionadas a política ou a economia de modo a beneficiar ou prejudicar determinado grupo social? Saímos de uma era de tentativas de golpes para uma era de manipulação de informações. A pós-verdade chegara com tudo, sem alarde e fazendo estragos imensos — e em alguns casos, muito difíceis de serem revertidos.

As causas para essa onda desenfreada de propagação das fake news podem ser resumidas em três aspectos: o social, do sujeito que propaga como viés de confirmação de sua crença, como forma de garantir ou adquirir status frente a determinado grupo social, ou daquele que produz esse tipo de conteúdo para difamar ou obter ganhos políticos, econômicos ou até sociais; o aspecto político, diretamente relacionado ao primeiro e que tem como objetivo macular a imagem de um opositor e o aspecto midiático, onde o anseio por publicações exclusivas aliado à necessidade de gerar cliques e lucrar com a exibição dos anúncios alimenta um mercado crescente e que não tem pudor algum ao lidar com questões que estão presentes em nosso cotidiano: desde remédios para emagrecer ou para curar doenças incuráveis até a disputa por audiência em de determinados segmentos sociais. Quando esses três elementos se juntam, criam um monstro que é capaz de propagar e se manter no imaginário popular por mais tempo do que notícias verdadeiras.

Mas há um quarto aspecto que é tão importante quanto os outros três para explicar esse momento em que vivemos e que ainda não recebeu a atenção necessária: a educação. Sim, o ensino em sala de aula não deu a devida atenção ao problema. Classificávamos a Wikipédia como uma plataforma insegura simplesmente por ela ser aberta, editável por qualquer interessado (não importando a sua formação ou reputação acadêmica). Mas não ensinamos que o problema não residia em sua liberdade de edição, e sim, na ausência de fontes confiáveis que referendassem aquele conhecimento apresentado por ela. Não percebemos que a única forma de mostrar que o estava ali escrito conferia com a realidade era checar as fontes relacionadas com as informações colocadas nos artigos. Em contrapartida, aceitamos com certa passividade (associada a uma boa dose de ingenuidade) que pessoas ou empresas publicassem informações de toda sorte, acreditando na veracidade de suas posições e informações simplesmente por elas estarem publicadas na internet; talvez pensássemos que ninguém fosse arriscar a sua credibilidade colocando notícias falsas ou conhecimentos imprecisos só para obter ganhos com audiência e publicidade.

Assim, não ensinamos uma geração inteira como deveríamos nos portar diante dos conteúdos encontrados na web. Não ensinamos a verificar as informações, a comparar dados informados com dados oficiais ou a perceber nuances do discurso simplesmente porque na escola não lidamos com essas questões. Não utilizamos as aulas de ciências naturais para explicar como alguns elementos do método científico podem ser úteis na verificação de informações; não explicamos como dados e informações oficiais podem ser consultados e comparados com as informações dadas em um texto. Não discutimos a linguagem, a formação e a articulação de manchetes, tampouco a composição de um argumento cientificamente validado, isto é, aquela baseado em dados racionalmente verificáveis.

Esse é um problema, aliás, que atinge até a ciência: enquanto fake news propagam notícias falsas ou que ninguém consegue verificar imediatamente a sua veracidade, a ciência tem lidado com o problema da reprodutibilidade, que ocorre quando cientistas não conseguem reproduzir os resultados apresentados por outros pesquisadores (mais sobre aqui).

Se queremos um combate verdadeiramente sério às notícias falsas, não devemos esperar que somente a mídia trate do assunto. É preciso que as escolas atuem para mostrar aos alunos como se defenderem dessa praga de notícias falsas que infestam nossa sociedade. Proteger-se das notícias falsas exige conhecer mecanismos de pesquisa, nuances do argumento e onde e como levantar dados e informações, verificar hipóteses. Esse tipo de ensino é como uma vacina contra mentiras. Basta apenas que nos engajemos neste desafio.

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O excelente texto sobre Aviv Ovadya, um dos primeiros a prever a crise da informação gerada pela propagação das fake news mostra o quanto a questão é urgente e precisa ser discutida em todas as áreas. Fica a dica de leitura de seu final de semana.

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